Todoprosa por Sérgio Rodrigues

Frase

  • Somerset Maugham “Existem três regras para escrever ficção. Infelizmente, ninguém sabe quais são elas.†SOMERSET MAUGHAM
30/07/08 15:13h

Vila dos Confins 2008

Nelson chegou com dois caminhões apinhados. Entregou os títulos: cinqüenta e sete. Entrou na venda a correr, e levou Paulo para o quarto:

– Compraram o meu pessoal, deputado! Mais de trinta! Quis acudir, mas foi tarde. Graças a Deus, eu tinha recolhido a maioria dos títulos. Se não, ia tudo de embrulho… Deram dez contos para o Armando da Várzea Limpa. Dez contos por oito eleitores! Soltaram dinheiro mesmo. Mas o pior foi que tive de prometer também; caso contrário, nem a metade embarcava nos caminhões. Estamos perdidos…

Paulo ouvia a má notícia resignado. Procurava animar o companheiro:

– Se você trouxe estes cinqüenta, podemos garantir mais de trezentos, fora o pessoal que já veio, e o da cidade. Nenzinho chegou com trinta e nove; Bilico ainda não veio, mas deve trazer também uns trinta… e os protestantes não apareceram ainda. Podemos pôr mais uns vinte, por baixo… Ah, e tem o João Soares! Do Fundão vêm mais de cem, com certeza. Mais de trezentos, não, mais de trezentos e cinqüenta! A eleição é nossa, Seu Nélson!

Mas o candidato a vereador pelo Brejal estava desanimado:

– Sei lá, doutor! Se compraram títulos na minha zona, compraram também nas zonas dos outros.

Numa eleição em que surge com força na política brasileira a triste figura do curral eleitoral urbano, convém lembrar o melhor retrato literário dos currais eleitorais de origem, os rurais, feito pelo escritor mineiro Mário Palmério (1916-1996) no romance regionalista “Vila dos Confinsâ€, de 1956. Deputado federal pelo PTB de 1950 a 1962, o autor sabia o que estava falando. O quê? O livro está fora de moda? Completamente. Mais um motivo para lê-lo.

29/07/08 15:52h

O monstro Banville contra o médico Black

Esta reportagem (em inglês, acesso gratuito) do “Washington Post†de ontem sobre o médico e o monstro que habitam o premiado escritor irlandês John Banville, 62 anos, pode ser lida como pura diversão. Como nunca foi segredo, mas permanece pitoresco, o autor de “O mar†(Nova Fronteira, 2007, tradução de Maria Helena Rouanet), vencedor do Booker 2005, tem duas personalidades literárias. Uma é o próprio Banville, um escritor perfeccionista, angustiado, ambicioso, torturado, um tanto esnobe e, com exceção de “O mar”, pouco lido. A outra é mais recente e atende pelo nome de Benjamin Black, um autor assumidamente comercial, que já está em seu terceiro romance policial – nenhum deles traduzido no Brasil por enquanto.

Não chega a ser tão surpreendente que, para Banville, o monstro seja o primeiro, que leva cinco anos para terminar um livro, e o médico o segundo, que o faz em cinco meses. “Tenho orgulho dos livros de Benjamin Black da mesma forma que um marceneiro tem orgulho de uma mesa bem feitaâ€, diz. “Já os livros de John Banville eu abomino, desprezo e odeio. São uma afronta para mim.†Um leitor mais cínico poderia definir assim as duas personalidades de Banville: um autor de gênero e um autor que faz gênero. Mas tudo isso ainda é diversão.

A segunda forma de ler o artigo toca de leve em algumas questões mais sérias sobre o eterno conflito entre “alta cultura†e “cultura de massaâ€. E aponta para uma superação dessa divisão esquizofrênica, que já há algum tempo, a meu ver, se sustenta mais em acordos tácitos de reserva de mercado do que em pressupostos propriamente artísticos. Não diria que é o caso aqui – nunca li Black, e acho Banville um escritor interessante – mas não faltam exemplos de autores ditos comerciais que dão olé artístico em seus colegas de nariz em pé. Que, no entanto, continuam de nariz em pé. É engraçado.

Banville sugere ao “Washington Post†que os dois escritores estão se aproximando, um aprendendo truques com o outro. Talvez se encontrem no meio do caminho um dia. Um final que eu chamaria de feliz.

27/07/08 13:56h

Viva Ubaldo

Em homenagem a João Ubaldo Ribeiro pela conquista do prêmio Camões, que ele achou merecido e eu também, lembro a vitória de “Viva o povo brasileiroâ€, seu romance mais importante, na eleição de melhor livro da ficção brasileira em 25 anos – de 1982 a 2007 – que o Todoprosa promoveu em abril do ano passado ouvindo escritores, críticos, editores e jornalistas da área.

Aqui, o resultado geral da enquete.

E aqui, uma modesta tentativa de entender o encanto duradouro desse romanção.

27/07/08 10:25h

Começos (ainda) inesquecíveis: Leon Tolstoi

Os começos são bons cada um à sua maneira. Post publicado em 21/8/2006:

*

Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.

A frase de abertura de “Ana Kareninaâ€, obra-prima do romance que Leon Tolstoi começou a publicar na imprensa em 1875 (Editora Nova Aguilar, Obra Completa, volume 2, 2004, tradução de João Gaspar Simões), conseguiu virar aquilo que a maioria dos escritores só ousa perseguir em sonho: máxima, aforismo, provérbio, dito popular, pérola de sabedoria que parece não ter dono, mas brotar diretamente do inconsciente coletivo.

26/07/08 9:18h

A palavra é...
Genocídio

As atrocidades que nomeia são mais velhas que a Bíblia, mas a palavra genocídio – extermínio deliberado, total ou parcial, de um grupo étnico, nacional ou religioso – tem apenas 64 anos. Quase a mesma idade de Radovan Karadzic, o ex-líder servo-bósnio que, preso esta semana em Belgrado, aguarda extradição para responder a processo no Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia, em Haia. Entre as acusações que Karadzic enfrentará, por crimes de guerra cometidos contra os muçulmanos bósnios no conflito dos Bálcãs nos anos 1990, a de genocídio diz respeito a um crime que ainda não existia no direito internacional em 1945, quando ele nasceu.

A palavra acabara de surgir. Um ano antes, o advogado polonês de origem judaica Raphael Lemkin tinha publicado nos EUA um livro sobre a ocupação nazista na Europa em que punha por escrito pela primeira vez um termo cunhado por ele mesmo com elementos do grego (génos, “tronco, raçaâ€, da família de gênese e gente) e do latim (cidium, “ação de matarâ€). A mesma obra propunha uma definição de genocídio que abrangia não só a perseguição física mas também a cultural, a moral etc.

Como costuma ocorrer, a realidade tinha se antecipado à linguagem. Em 1944, diante da anunciada derrota do Eixo na Segunda Guerra Mundial, a máquina de extermínio nazista fazia hora extra para dar números finais – 6 milhões de mortos – ao Holocausto. Mas o estudo de Lemkin também levava em conta o massacre de um milhão de armênios pelo governo turco durante a Primeira Guerra.

As idéias do advogado polonês serviram de base para o julgamento de criminosos nazistas no Tribunal de Nuremberg, instaurado em 1945. No entanto, só em 1948 a ONU aprovou a convenção que fixava uma definição de genocídio – restrita às perseguições físicas, aquém do que preconizava Lemkin – e sua punição.

Publicado na “Revista da Semanaâ€.

25/07/08 11:36h

Web 2.0 e literatura, feitos um para o outro

O (ótimo) escritor japonês Haruki Murakami não gosta muito de entrevistas. A revista “Time†conseguiu convencê-lo a responder a perguntas dos leitores e começou a coletar pela internet a preciosa contribuição conteudística do ilustrado público. Alguns exemplos (via Slog e Gawker):

Cê é gay né.

Por que seus romances são tão horríveis?

Como será o seu funeral?

Quando está frio e chove fininho, quando o tempo parece congelado numa matéria viscosa e você está se sentindo meio melancólico, talvez recordando um dia da sua juventude em que as condições atmosféricas eram parecidas, tem algum disco específico que você goste de ouvir?

Pois é: se até na caixa de comentários do Todoprosa, famoso reduto de uma elite intelectual, o nível às vezes bate no chão, o que esperar da coitada da “Time”?

23/07/08 16:30h

Littell, o melhor estrangeiro

Até o momento, não havia no Brasil nenhum prêmio que contemplasse os melhores livros estrangeiros. Eis um grande paradoxo no país da literatura “antropofágicaâ€.

Cunhambebe (nome de canibal) é esse prêmio. Num mercado em que o fato de ser estrangeiro parece fazer qualquer autor largar com algumas voltas de vantagem sobre a indiada, a iniciativa – mesmo se levarmos em conta o caráter simbólico da premiação – é curiosa. O primeiro vencedor, escolhido por uma comissão julgadora de respeito, é As Benevolentes, de Jonathan Littell (Alfaguara).

22/07/08 11:32h

O Google está mexendo no seu cérebro

Já não penso da mesma forma que costumava pensar. Percebo isso com maior nitidez quando estou lendo. Mergulhar num livro ou num artigo de fôlego era fácil. Minha mente era conduzida pela narrativa ou pelos contornos do argumento, e eu ficava horas passeando por longas extensões de prosa. Isso raramente ocorre agora. Hoje minha concentração quase sempre começa a se perder depois de duas ou três páginas. Fico inquieto, perco o fio da meada, começo a procurar outra coisa para fazer. Sinto-me como se sempre tivesse que arrastar meu cérebro rebelde de volta ao texto. A leitura profunda que costumava me vir naturalmente tornou-se uma luta.

Acho que sei o que se passa. Por mais de uma década, tenho ficado muito tempo online, pesquisando, surfando e às vezes contribuindo para o crescimento dos grandes arquivos da internet.

À primeira vista pode não parecer, mas vai muito além do tolo alarmismo anti-web o artigo – “de fôlego†– publicado por Nicholas Carr na revista “Atlantic Monthly†(em inglês, acesso gratuito), com o título O Google está nos deixando burros?. O autor especula sobre como a rede mundial de computadores, ao mudar nossa relação com a leitura, estaria reprogramando nossos cérebros.

O título chamativo não faz justiça ao texto. Embora seja um conhecido adversário dos utopistas tecnológicos, Carr não é um reacionário. Lembra que seria fácil repetir hoje o erro de Platão, que, ao prever que a escrita enfraqueceria nossa memória e multiplicaria o conhecimento às custas da verdadeira sabedoria, tinha sua dose de razão, mas sofria de visão curta: a longo prazo, os benefícios da técnica tornaram seu argumento ridículo. Um cara preocupado, isso Carr é mesmo. Mas quem vai dizer que lhe faltam motivos?

21/07/08 11:56h

Sobrescritos
Diálogo com pastinha de hadoque

Você gostou?

Hein?

Gostou do livro?

O livro é legal.

Legal o bastante para ganhar capa?

Hahaha, calma, as coisas não funcionam desse jeito. Primeiro, não gostei tanto assim. E mesmo que tivesse gostado, a minha opinião é só a minha opinião. Não basta.

Como não? Você não é o editor da revista?

Escuta, querida. Você quer me ensinar a fazer o meu trabalho?

Não, eu…

Eu só aceitei este almoço, no meio de uma semana complicadíssima para mim, porque a gente sempre teve uma boa relação profissional. Acho você uma menina bacana, competente. Mas não confunda as coisas.

Desculpe.

O livro que você está tentando me empurrar é ingrato. Melhor desistir. Poupe sua munição para quando valer a pena.

Certo. É só que você disse que achou legal…

Estava sendo educado. Na verdade eu nem li.

Ah.

Não precisei ler. Leram por mim.

Alguém da sua equipe…

Mais ou menos isso. Vamos pedir?

Para mim, a truta com arroz de amêndoas. Você pode me dizer quem da sua equipe leu?

Taí, eu vou na truta também. Hein?

Quem da sua equipe não gostou, você pode me dizer? Aqui entre nós?

Não.

Entendo.

Parece que não entende, não. Garçom!

Olha, não me leve a mal. É só que…

Duas trutas com amêndoas, por favor.

É só que eu gosto muito do livro. Muito mesmo. Nunca fiz uma divulgação em que eu acreditasse tanto.

Hmm.

Acho que a literatura brasileira precisa de livros como esse.

Hmmm.

Você devia ler, viu? Mesmo que ficasse para um próximo número, não tem pressa.

Jura que não tem pressa?

Claro que não. O tempo da literatura…

Escuta, queridinha, vou abrir o jogo com você. Esse livro não entra na minha revista. Nem este mês nem ano que vem. Nem como capa nem como notinha. Não entra nem arrombando a porta, nem seqüestrando a minha mãe. Ficou claro?

Puxa, mas…

Esse autor é um não-autor na minha revista. Entendeu agora? O dia em que ele for levado a sério pela Textus e pela Finnegans, a gente conversa. Quando ele ganhar elogios estonteantes do Adolfo Pinho Rosa, a gente conversa. Quando o Armazém Typographico contratar seu próximo romance, a gente conversa. Quando a turma do Empório Zero der festinha em homenagem a ele, a gente conversa. Quando a blogosfera bater tambor para ele, a gente conversa. Quando…

Entendi. A sua revista segue a manada.

Que seja. Se é assim que você prefere pôr as coisas.

Desculpe, eu não tive a intenção.

Você tem muito que aprender, não tem?

Eu sei. Desculpe. Não vamos mais falar desse livro.

Acho bom.

Você gostou da pastinha de hadoque do couvert?

A pastinha é legal.

Eu já sabia que o Guia Swinton tinha recomendado, mas só agora entendo por quê.

Realmente fantástica a pastinha.

20/07/08 10:50h

Começos (ainda) inesquecíveis: Jeffrey Eugenides

Como esquecer as irmãs Lisbon? Post publicado em 9/7/2006.

*

Na manhã em que a última filha dos Lisbon decidiu-se também pelo suicídio – foi Mary dessa vez, e soníferos, como Thereza –, os dois paramédicos chegaram à casa sabendo exatamente onde ficavam a gaveta das facas, o forno, e a viga no porão à qual era possível atar uma corda. Saíram da ambulância, como sempre andando mais devagar do que gostaríamos, e o gordo disse entre dentes: “Isso não é a TV, gente, mais rápido não dá.†Carregava o pesado equipamento cardíaco e o respirador, passando pelos arbustos que haviam crescido de forma monstruosa, pisando o gramado transbordante que fora liso e imaculado treze meses antes, quando os problemas começaram.

Assim, entregando o fim para garantir desde a primeira linha que o leitor só abandonará o livro antes da hora se for ruim da cabeça, tem início a viagem poética e mórbida – praticamente neo-simbolista, pensando bem – de “Virgens suicidas†(Rocco, 1994, tradução de Marina Colasanti). Para quem se interessa pelas engrenagens da escrita, o belo romance de estréia do americano de ascendência grega Jeffrey Eugenides merece destaque ainda por um recurso inusitado: a narração é toda feita na primeira pessoa… do plural.

19/07/08 10:41h

A palavra é...
Charge

Ao mostrar o casal Barack Obama encarnando os boatos que circulam contra o candidato democrata em setores conservadores dos EUA, a capa da revista “The New Yorker†tenta, pelo exagero da cena, expor tais boatos ao ridículo. Se a estratégia corre o risco de incompreensão que sempre acompanha a ironia, o que ninguém pode negar é que toda boa charge tem isso em comum: agressividade e exagero. Ou o gênero de desenho jornalístico que filtra o noticiário pela lente do humor não teria esse nome.

O francês charge, de onde veio nossa palavra, quer dizer apenas carga, mas nesse caso com o sentido de crítica contundente. Trata-se de uma extensão metafórica da acepção militar de ataque – presente numa expressão como carga de cavalaria – adaptada ao vocabulário da imprensa e especialmente ao trabalho dos desenhistas cômicos. O italiano caricatura (inicialmente, ato ou efeito de carregar) partiu do mesmo ponto e chegou a resultado parecido. Tão parecido que é lícito supor que um vocábulo tenha surgido como tradução do outro. Nesse caso, há indícios de que a caricatura veio antes: segundo o Houaiss, o primeiro registro de sua acepção moderna (fins do século 16) aparece quase cem anos à frente da primeira charge francesa.

No Brasil, charge e caricatura – assim como cartum, termo mais recente, do inglês cartoon – são palavras sinônimas e usadas muitas vezes de forma intercambiável. O que as diferencia são nuances. No sentido mais estrito, a caricatura retira seu humor apenas do exagero dos traços fisionômicos, enquanto a charge, que pode ou não incluir o recurso à caricatura, privilegia o exagero da situação.

Publicado na “Revista da Semanaâ€.

18/07/08 15:48h

Escritores e zumbis

Toda semana, desde o início do mês passado, um capítulo do romance The living, uma história de zumbis, é publicado nesse site (em inglês, acesso gratuito), terminando com algum gancho típico de folhetim ou telenovela – uma bifurcação no enredo. E aí, o cara vive ou morre? Como estamos na internet, quem decide de que forma a pergunta será respondida no capítulo seguinte é o leitor. Só depois de computados os votos é que o autor, o americano Kealan Patrick Burke, pode dar prosseguimento à história, e assim começa tudo de novo. (Dica do blog de livros do “Guardianâ€.)

A coisa é tão singela que tem sua simpatia, e o charme para quem vive buscando exemplos de casamento entre web e ficção é evidente. Mesmo assim, devo admitir que acho cada vez mais difícil entender o fascínio exercido por esse tipo de interatividade. Uma coisa é a experiência com histórias abertas, tridimensionais, que permitam ao leitor navegar em diversas direções – um modelo narrativo prenunciado por Julio Cortázar em “O jogo da amarelinha†e que a web parece equipada para levar a conseqüências interessantes um dia, embora ainda esteja longe disso.

Algo bem diferente é submeter o próprio processo de escrita a essas enquetezinhas populistas que infestam a rede. Escritor que é escritor assume suas escolhas, mesmo que precise morrer abraçado a elas. Se quer que algo fique aberto para o leitor decidir, tem técnicas para isso. Pode deixar aquela ponta solta ou escrever duas, cinco ou mais possibilidades. O que não pode – não se quiser continuar se chamando escritor – é lavar as mãos e consultar os “universitários†que o lêem.

Isso para não mencionar os momentos em que um autor é obrigado, para o bem de sua história, a fazer justamente o contrário do que os leitores desejam. Contrariá-los profundamente quando torcem, bocós, para que Romeu e Julieta sejam felizes para sempre. A tal web 2.0 se acha muito esperta, mas esqueceu o valor inestimável – estético, pedagógico, político, o diabo – da frustração.

Eu sei, eu sei: é só um joguinho. Se experiências do tipo The living abrirem mercado de trabalho para escribas, que sejam bem-vindas. Só não convém esquecer que serão sempre uma forma rebaixada de literatura.

17/07/08 19:55h

As quinhentas palavras de Nooteboom

Passou a Flip, passou a ressaca da Flip, e eu me pego pensando insistentemente em algo que, no calor da hora, julguei trivial demais para comentar aqui no blog: o limite de quinhentas palavras por dia que o escritor holandês Cees Nooteboom se impõe.

Convém deixar claro: o que me impressionou não foi a disciplina de Nooteboom, o fato de que ele se obriga a escrever todo dia, em qualquer estado de espírito. Isso é rotina de escritor. O que me impressinou foi ele escrever tão pouco. “Se por acaso perco a conta e chego a seiscentas palavras, fico nervosoâ€, disse. Ir além disso, para ele, seria correr o risco de perder qualidade, densidade literária.

Fiz umas medições: quinhentas palavras equivalem a cerca de 45 linhas ou 3.000 toques com espaços. Em linguagem de velho jornalista, uma lauda e meia. Mesmo considerando a hipótese – delirante, porque não entendo nada de holandês – de na língua de Nooteboom as palavras serem mais compridas, mesmo que ele use uma única palavra composta para dizer, sei lá, “céu cinzento com nimbos a oesteâ€, ainda assim parece pouco.

Mas se todas as quinhentas forem boas, dá um livro por ano. Dos gordos.

16/07/08 12:55h

O melhor livro e o pior sexo

Sim, eu sei: Salman Rushdie levou dias atrás o prêmio de melhor Booker entre os Bookers, no aniversário de quarenta anos do prêmio, por “Os filhos da meia-noite†(Companhia das Letras, tradução de Donaldson M. Garschagen). Quem sabe agora eu perco o preconceito, tiro da cabeça que ele é só um epígono de “realista mágico†e dou uma chance ao homem.

Alguém aí se anima a deixar na área de comentários uma recomendação convincente que vá além de “ganhou o Booker dos Bookers�

Bacana, importante e tal, mas esses premiozões costumam ter alguma coisa de entediante, não? Basta dizer que o mesmo livro já tinha vencido a eleição de 1993, quando se comemorou o 25.° aniversário do galardão britânico. Puxa.

Deve ser só um estado de espírito momentâneo, mas, prêmio por prêmio, os que demarcam o outro lado da apreciação crítica – o lado de baixo, o fim da picada – têm me parecido mais relevantes. Em termos de balizamento estético, não dá para negar que a função do “pior“ é tão indispensável quanto a do “melhorâ€. Com a vantagem de nos fazer rir um pouco.

Excelente exemplo é o Bad Sex Award, concedido todo ano pela Literary Review de Londres (aqui, em inglês, os trechos vencedores de 1998 a 2005). Ganha o autor da pior, menos excitante, mais canhestra cena de sexo da ficção. Uma disputa sempre duríssima num dos terrenos mais traiçoeiros que um escritor pode enfrentar.

O prêmio mais recente foi dado postumamente a Norman Mailer por “O castelo na floresta†(Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares), ficção histórica sobre os anos de formação de Adolf Hitler. Eis um trecho da cena campeã, na página 68 da edição brasileira:

Assim, Klara virou-se para os pés da cama, pôs sua parte mais indecente sobre o nariz e a boca ofegantes de Alois e tomou em seus lábios seu velho aríete de guerra. Titio estava tão mole quanto um rolo de excremento. Não obstante, ela o chupou com uma avidez que só poderia vir do Maligno – isso ela sabia. Era de lá que aquele impulso tinha de vir. Assim, ambos estavam agora com as cabeças no lado errado, e o Maligno estava ali. Jamais estivera tão perto.

O Sabujo começou a voltar à vida. Dentro de sua boca. Foi uma surpresa para ela. Alois estivera tão flácido. Mas, agora, era homem de novo! A seiva de Klara escorria de sua boca, ele virou-se e cingiu o rosto dela com toda a paixão de seus lábios e sua face, pronto finalmente para moê-la com seu Sabujo…

Tem mais, mas isso basta – com sobra – para justificar a vitória de Mailer.

Quando tiverem a idéia de fazer uma versão brasileira do prêmio, não se esqueçam de me convidar para o júri.

15/07/08 9:38h

Enfim, o MacLivro Eletrônico

Quem se lembra da esnobada que Steve Jobs, da Apple, deu no livro eletrônico depois que a Amazon lançou o Kindle? Disse o homem que sua empresa não se interessava por esse mercado porque “as pessoas não lêem mais†– e não estava falando da classe média brasileira. Na época, comentei aqui no Todoprosa que Jobs podia estar disfarçando, enquanto se preparava para lançar um aparelho matador.

Acho que me enganei. Tudo indica que o aparelho já estava no mercado àquela altura, embora só agora comece a ficar mais clara sua vocação – entre muitas outras – para a leitura. Acaba de ser lançado o eReader Pro for iPhone, algo que os fãs do iPhone aguardam faz tempo. O vídeo demonstrativo disponível no endereço aí atrás é promissor, ainda que meio mambembe, mas convém esperar para saber como a novidade passará pelo teste de fogo a que a temida brigada dos blogueiros de tecnologia a submeterá nos próximos dias. Tamanho da tela, superfície brilhante x fosca, disponibilidade de títulos para baixar em cada um dos formatos, são muitas as variáveis que precisam ser levadas em conta.

Uma coisa parece certa: é bem mais condizente com o espírito do tempo ter um leitor eletrônico embutido num aparelho de múltiplas funcionalidades do que carregar uma engenhoca que serve só para isso.

13/07/08 10:58h

Começos (ainda) inesquecíveis: Marguerite Duras

Depois de um domingo flípico, esta retrospectiva volta ao lugar que é seu. O post abaixo foi publicado em 21/1/2007.

*

Certo dia, já na minha velhice, um homem se aproximou de mim no saguão de um lugar público. Apresentou-se e disse: “Eu a conheço há muito, muito tempo. Todos dizem que era bela quando jovem, vim dizer-lhe que para mim é mais bela hoje do que em sua juventude, que eu gostava menos de seu rosto de moça do que desse de hoje, devastado.â€

Penso freqüentemente nessa imagem que só eu ainda vejo e sobre a qual jamais falei a alguém. Está sempre lá no mesmo silêncio, maravilhosa. É entre todas a que me faz gostar de mim, na qual me reconheço, a que me encanta.

Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais.

Assim, de forma bela e estranha, começa o belo e estranho “O amante†(Nova Fronteira, 1985, tradução de Aulydes Soares Rodrigues), pequeno – na extensão – romance memorialístico com o qual Marguerite Duras (1914-1996) conquistou o prêmio Goncourt de 1984 e o sucesso comercial em escala planetária.

12/07/08 10:02h

A palavra é...
Colarinho-branco

A palavra composta colarinho-branco, que traduzimos do inglês white-collar, está tão associada à expressão “crime do colarinho branco†que deixa em segundo plano sua idéia de origem, que era simplesmente dividir os trabalhadores em dois grupos: de um lado os colarinhos-brancos, com terno e gravata, alto grau de escolaridade e salários gordos; do outro os blue-collar workers, o pessoal de uniforme, mal remunerado, encarregado de trabalhos braçais. O colarinho-azul não migrou para o vocabulário do português. Ficamos só com o branco mesmo.

Esse código de cores é bem americano: em grande parte das empresas daquele país, ao longo do século passado, o nível hierárquico dos funcionários era indicado por jalecos brancos e azuis. No entanto, há quem diga que as raízes são mais profundas. O primeiro registro de white-collar para qualificar o trabalhador de escrivaninha é de 1919 e aparece na obra de Upton Sinclair, autor do livro em que se baseou o filme “Sangue negroâ€, que valeu a Daniel Day-Lewis o Oscar de melhor ator. Supõe-se, porém, que a palavra tenha influência do colarinho engomado dos clérigos de várias religiões cristãs. Por séculos, foi nesses grupos que a sociedade européia recrutou não apenas sacerdotes, mas a maioria de seus trabalhadores intelectuais.

Mesmo sendo uma palavra dicionarizada que designa engravatados em geral, colarinho-branco é hoje quase uma exclusividade do vocabulário criminal. A expressão “crime do colarinho branco†surgiu em 1949, também no inglês, cunhada pelo criminologista Edwin Shuterland. A crescente liberalização dos trajes de trabalho pode ter contribuído para esse estreitamento, mas o fator dominante no Brasil foi certamente a grande popularidade do “apelido†midiático da lei federal nº 7.492, de 1986, que tem como alvo os crimes contra o sistema financeiro.

Publicado na “Revista da Semanaâ€