O melhor livro e o pior sexo
Sim, eu sei: Salman Rushdie levou dias atrás o prêmio de melhor Booker entre os Bookers, no aniversário de quarenta anos do prêmio, por “Os filhos da meia-noite†(Companhia das Letras, tradução de Donaldson M. Garschagen). Quem sabe agora eu perco o preconceito, tiro da cabeça que ele é só um epÃgono de “realista mágico†e dou uma chance ao homem.
Alguém aà se anima a deixar na área de comentários uma recomendação convincente que vá além de “ganhou o Booker dos Bookers�
Bacana, importante e tal, mas esses premiozões costumam ter alguma coisa de entediante, não? Basta dizer que o mesmo livro já tinha vencido a eleição de 1993, quando se comemorou o 25.° aniversário do galardão britânico. Puxa.
Deve ser só um estado de espÃrito momentâneo, mas, prêmio por prêmio, os que demarcam o outro lado da apreciação crÃtica – o lado de baixo, o fim da picada – têm me parecido mais relevantes. Em termos de balizamento estético, não dá para negar que a função do “pior“ é tão indispensável quanto a do “melhorâ€. Com a vantagem de nos fazer rir um pouco.
Excelente exemplo é o Bad Sex Award, concedido todo ano pela Literary Review de Londres (aqui, em inglês, os trechos vencedores de 1998 a 2005). Ganha o autor da pior, menos excitante, mais canhestra cena de sexo da ficção. Uma disputa sempre durÃssima num dos terrenos mais traiçoeiros que um escritor pode enfrentar.
O prêmio mais recente foi dado postumamente a Norman Mailer por “O castelo na floresta†(Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares), ficção histórica sobre os anos de formação de Adolf Hitler. Eis um trecho da cena campeã, na página 68 da edição brasileira:
Assim, Klara virou-se para os pés da cama, pôs sua parte mais indecente sobre o nariz e a boca ofegantes de Alois e tomou em seus lábios seu velho arÃete de guerra. Titio estava tão mole quanto um rolo de excremento. Não obstante, ela o chupou com uma avidez que só poderia vir do Maligno – isso ela sabia. Era de lá que aquele impulso tinha de vir. Assim, ambos estavam agora com as cabeças no lado errado, e o Maligno estava ali. Jamais estivera tão perto.
O Sabujo começou a voltar à vida. Dentro de sua boca. Foi uma surpresa para ela. Alois estivera tão flácido. Mas, agora, era homem de novo! A seiva de Klara escorria de sua boca, ele virou-se e cingiu o rosto dela com toda a paixão de seus lábios e sua face, pronto finalmente para moê-la com seu Sabujo…
Tem mais, mas isso basta – com sobra – para justificar a vitória de Mailer.
Quando tiverem a idéia de fazer uma versão brasileira do prêmio, não se esqueçam de me convidar para o júri.

Comentário de xerxenesky — 16/7/08 | 13:23
haha, o Pynchon concorreu ano passado pelo seu Against the Day e a infame cena do cocker spaniel mordendo as partes pudendas do sujeito.
Comentário de Chato — 16/7/08 | 15:20
Sexo é bom de fazer, e não de escrever. As descrições de cenas de sexo em poemas (e mesmo em prosa) normalmente são tÃpicas de quem pode muito bem saber escrever, mas de sexo (e de sua prática) pouco ou nada entende (Drummond: “Quero sempre invadir essa vereda estreita/onde o gozo maior me propicia a amada”).
De fato, além de cafona, a idealização (ou recriação) literária do sexo normalmente é inverossÃmil e sem graça. Larguemos a pena, ora pois, na hora em que pensarmos em sexo. Sexo é a anti-literatura: deixamos de ser homens e passamos a animais, e animal não escreve. Rosna. Lembremos, a propósito, do velho Nelson Rodrigues: “O homem só começa a ser homem depois dos instintos e contra os instintos”.
Comentário de Priscilla Fogiato — 16/7/08 | 15:28
Pra mim, Os Filhos da Meia-Noite é como Ulisses. Quanto mais falam bem, menos consigo ler. E olha que eu gosto de Rushdie, adorei O Ùltimo Suspiro do Mouro.
Quanto ao sexo… Depois de ler isso eu devo ficar umas semanas sem conseguir me inspirar. Que descrição lamentável…
Comentário de Cezar Santos — 16/7/08 | 15:49
Será que o prêmio não teria algo a ver com a praga do politicamente correto, com o tal do multiculturalismo, sei lá…afinal, o anglo-indiano Rushdie pode ser uma figura emblemática disso tudo. Ou estou todo torto nessa avaliação?
Fato é que Rushdie escreve bem pra dedéu em determinados (poucos) momentos, e é fraquinho em muitos outros. Ou seja, está na média dos bons escritores (não dos excepcionais).
Comentário de Eric Novello — 16/7/08 | 16:10
Ora pois, acho que é possÃvel escrever sobre sexo sim… e bem!! Eu pelo menos vivo tentando na minha série Sombra no Sol.
ps. essa cena do Norman Mailer nem deveria participar da votação, tamanha a covardia com os concorrentes
Abs!
Comentário de Jonas — 16/7/08 | 16:48
Pior que esta cena do Mailer, só uma do Tom Wolfe que também ganhou o Bad Sex Award e que está naquele Charlotte Simmons.
Comentário de Sérgio Rodrigues — 16/7/08 | 17:01
Jonas, a cena do Tom Wolfe está disponÃvel no link que eu dou para a Literary Review. Recomendo reler. É ruim mesmo, mas o Mailer é muito pior. “Titio estava tão mole quanto um rolo de excremento” é imbatÃvel.
Eric, concordo com você (e discordo do Chato), claro que é possÃvel escrever boas cenas de sexo. A dificuldade só torna tudo, por assim dizer, mais excitante.
Abraços.
Comentário de Sérgio Karam — 16/7/08 | 18:05
E que tal um concurso pra eleger a melhor cena de sexo da literatura? Alguém tem algum palpite?
Comentário de Tibor Moricz — 16/7/08 | 18:11
Continue tentando, Eric. No dia que conseguir, nos avise…rsrs
Comentário de MARIECHEN ALPS SCHEMANN — 16/7/08 | 18:47
Sérgio, confesso que tentei ler,mas só tentativa sem sucesso. Perder um tempo precioso como o meu é com escritos que não me dizem nada e nem me acrescentam.
Vou lendo à vidamente na pressa comum de quem como eu, tem sede.
Mariechen
Comentário de Silvia — 16/7/08 | 18:49
Gostei do comentário e do argumento do Chato. Concordo com ele quando disse que até para grandes escritores como Drummond, sexo é um tema difÃcil de se retratar. Melhor mesmo é vivenciá-lo…Beijos!
Comentário de cláudio - sp — 16/7/08 | 19:06
Sempre que o sexo é mais sugerido do que descrito, é mais misterioso do que explÃcito, é muito mais gostoso de ler ….
Comentário de Edielton de Paula — 16/7/08 | 19:44
Sérgio, o livro do Rushdie é realmente excelente, muito bom mesmo, mas o Desonra, do Coetzee é melhor. Eu acho.
Comentário de hugo — 16/7/08 | 20:55
Não sei como é que se perde tempo com lixos literários do tipo escrito por Norman Mailer. Ele teve sua fase , foi muito lido nos anos 70, perÃodo de contra-cultura,etc. Hoje em dia não acho que literatura desse tipo ainda ache tantos leitores como antigamente. Outra coisa: É raro o(a) escritor(a) que consiga descrever cenas de sexo que não provoquem tédio nos leitores. Acho que eles fantasiam muito mais do que acontece na realidade, daà caem na mais pura sacanagem pensando que estão abafando. PreferÃvel Adelaide Carraro do que esses escrotos que ficam tirando onda de “grandes ” escritores da humanide.Tenho dito e fui…
Comentário de hugo — 16/7/08 | 20:55
Não sei como é que se perde tempo com lixos literários do tipo escrito por Norman Mailer. Ele teve sua fase , foi muito lido nos anos 70, perÃodo de contra-cultura,etc. Hoje em dia não acho que literatura desse tipo ainda ache tantos leitores como antigamente. Outra coisa: É raro o(a) escritor(a) que consiga descrever cenas de sexo que não provoquem tédio nos leitores. Acho que eles fantasiam muito mais do que acontece na realidade, daà caem na mais pura sacanagem pensando que estão abafando. PreferÃvel Adelaide Carraro do que esses escrotos que ficam tirando onda de “grandes ” escritores da humanidade.Tenho dito e fui…
Comentário de monika moll — 16/7/08 | 22:34
pior q os decritosa em “Xaviera” ? acho dificil aparecer …
Comentário de Fabio Negro — 16/7/08 | 23:55
Te convidar como concorrente, cê não aceita?
Comentário de Sérgio Rodrigues — 17/7/08 | 00:06
Os concorrentes não precisam de convite, Fabio Negro.
Comentário de itamar — 17/7/08 | 00:30
Já leram A Carne de Júlio Ribeiro? Na certa mudariam de opinião Mas,valores literários a parte,a questão mesmo é que tudo o que é fantasioso e idealizado é delirante. Quero dizer que reflete a nossa insanidade, colacando - nos cada vez mais, fora da realidade.Não fosse nossa inversão e teimosia sexo é ou deveria ser algo até secundário na vida da gente.
Comentário de Thiago Maia — 17/7/08 | 05:07
Eu li O ultimo suspiro do mouro ha dois anos e o considero um livro muito bom. Pode sim ser resumido como saga familiar / magico-realista, mas seria injusto justamente pelo preconceito que normalmente isso dispara. A historia tem partes engracadissimas e belas, e, para mim, a maior qualidade do livro eh seu contorno, ou seja, o perfeito fechar de pontas soltas e extremamente bem-construidas no enredo, repito, literariamente muito bonito [sim, mais uma vez parece a descricao de Cem anos de solidao, mas eh muito diferente. E trata o tempo todo das relacoes imperio / colonia, ocidente / oriente, cliche / lugar-comum : ) sendo ainda assim interessante e marcante]. Traducao de Paulo Henriques Britto.
Ah, sim, a chave de um dos principais desenlaces do romance eh uma cena sexual.
Comentário de maria luiza silva — 17/7/08 | 08:37
“titio”?” “sabujo”?! How cute!!!!!!
Comentário de Silvio... Silva — 17/7/08 | 09:29
Excelente, Sérgio. Rindo muito aqui com os laureados desse Framboesa literário. Poderia até ter várias categorias: pior cena de briga conjugal, pior cena de adultério, pior cena homoerótica…
Comentário de Gentil — 17/7/08 | 09:50
Realmente, o cara exagerou, misturando combate com escatologia numa cena que era pra ser de sexo. Se descrever o sexo em si já é difÃcil, imagina com umas metáforas dessas. Nesta área, o sugerido é sempre melhor do que o explÃcito.
Comentário de Dina Zagreb — 17/7/08 | 10:03
Para a versão brasileira do prêmio, sugiro todas as cenas de sexo do livro “A chave de casa”, da festejada Tatiana Salem Levy. É canhestro, clichê, risÃvel.
Comentário de André Gonçalves — 17/7/08 | 10:32
absolutamente lamentável.
concordo com o chato. nunca me encanter por poemas “eróticos” de drummond.
me convidaram, outro dia, para escrever um poema erótico para uma coletânea local. me recusei. num poema erótico, uma palavra errada fode. tudo.
é isso.
Comentário de botelho — 17/7/08 | 10:58
pica entrando, xana aabrindo, pica espirrando, xana molhando, chuveirada e só.
Comentário de Deise Guelfi — 17/7/08 | 11:26
Meu Deus… Espero não lembrar disso em horas erradas.
Comentário de Rafael — 17/7/08 | 12:21
Os poemos eróticos do Drummond consumiram tristes páginas da sua literatura. Não foi à toa que só foram publicados postumamente: Drummond tinha sensibilidade suficiente para perceber a porcaria que eram.
Na lÃngua portuguesa, ninguém senão Bocage soube escrever poemas eróticos de qualidade. Eis um exemplo:
“XLIX [SONETO DA MOCETONA PUDIBUNDA]
Levanta Alzira os olhos pudibunda
Para ver onde a mão lhe conduzia;
Vendo que nela a porra lhe metia
Fez-se mais do que o nácar rubicunda:
Toco o pentelho seu, toco a rotunda
Lisa bimba, onde Amor seu trono erguia;
Entretanto em desejos ela ardia,
Brando licor o pássaro lhe inunda:
C’o dedo a greta sua lhe coçava;
Ela, maquinalmente a mão movendo,
Docemente o caralho me embalava;
“Mais depressa” — Lhe digo então morrendo.
Enquanto ela sinais do mesmo dava;
MÃstica pÃvia assim fomos comendo.”
Notas: porra significa pênis e não sêmen; pÃvia é o mesmo que masturbação.
Para quem quiser ler mais, pode-se consultar este excelente site: http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/bocage.htm
Comentário de Jerry — 17/7/08 | 12:33
Uma cena de sexo interessante na literatura é a de Adso de Melk e a garota que entra na Abadia para pegar comida, no romance O Nome da Rosa, de Umberto Eco. É o próprio Adso, já velho, que narra o evento através de imagens religiosas. É engraçado.
Comentário de West — 17/7/08 | 12:44
Eu deixo uma recomendação. O conto sobre Isabel de Castella e Cristóvão Colombo em Oriente, Ocidente. Achei formidável, me deixou uma grande impressão.
Comentário de Paulo — 17/7/08 | 12:56
muito bem… falar de sexo é bom, pode ser interessante, divertido também. escrever sobre ou descrever a intimidade do ato sexual cabe à s pessoas que primeiro amam a si mesmas, no sentido de que encaram com naturalidade o momento ou os momentos com a pessoa com quem desfruta aquele instante onde tudo é permitido (havendo consenso) e onde tudo ao mesmo tempo beira a hipocresia. sim, porque em geral exageramos o sucesso e escondemos o fracasso. ambas situações fazem parte da vida sexual e privada. se o sexo fosse menos católico e mais protestante, considerando o aspecto original na criação, certamente os conceitos, preconceitos e pré-conceitos seriam todos reavaliados… somos parte de uma geração sob forte influência católica, hipócrita e mentirosa que nos ensinou que sexo é pecado, sujo, só para procriação… se fosse visto e entendido como algo que foi feito antes de tudo para o prazer conciente, o mundo, sim, o mundo seria um pouco melhor. sexo na cama, no sofá, no chão da cozinha, no carro, seja onde for, feito com naturalidade, com prazer, deve sempre ser desfrutado integralmente… mãos e bocas devem ser usados para dar prazer e proporcionar prazer… sem limite! sexo é muito bom!!! mas… usem camisinha!!!
Comentário de Dina Zagreb — 17/7/08 | 13:01
?
Comentário de Cezar Santos — 17/7/08 | 13:22
Sexo é foda!
Comentário de danica — 17/7/08 | 14:12
Engraçado fiquei curisosa sobre o livro embora tenha que concordar essa cena de sexo é mesmo bizarra
Comentário de Eric Novello — 17/7/08 | 15:28
Sexo rende, né?
E queima calorias! Campanha por uma vida mais saudável: escreva cenas de sexo que estimulem as pessoas a fazer sexo… de verdade. rs.
Tibor, ó procê: :-bb
Comentário de Noga Lubicz Sklar — 17/7/08 | 19:19
Deve ter alguma coisa de errado comigo. Primeiro, gosto de escrever sobre sexo, ou pelo menos já gostei, já escrevi um romance inteirinho sobre o tema (se houver um troféu Brasil do sexo ruim, e o Sergio estiver no juri, quem sabe ele vota em mim, rsrs.)
Gostei de Filhos da Meia-noite, e tb dos Versos Satânicos. Depois disso, acho que Rushdie descambou para a complexidade e excessiva quantidade de personagens e tive que deixá-lo de lado: comecei e abandonei.
Quanto ao Ulisses, sou suspeita pra falar: me apaixonei no ato; mas que o livro mudou minha vida, e meu jeito de fazer e consumir literatura, isso eu tenho que confessar. Já são 4 meses que terminei de ler e ainda não consegui ler mais nada, continuo na saudade.
Comentário de Chato — 17/7/08 | 19:35
Sobre o Bocage citado pelo Rafael: poemas fesceninos existem e de grande qualidade, como dos mestres Bocage, Gregório de Matos e Bernardo Guimarães, por exemplo. Mas é coisa bem diferente de poesia/prosa erótica: aqui a coisa é séria e pretende-se (sempre com maus resultados, a meu ver) descrever o ato amoroso (ui!) com fidelidade e sensualidade; lá a coisa é diferente, não se trata de nada sério, apenas sacanagem “de grosso calibre” para divertir.
Comentário de Daniel Brazil — 17/7/08 | 22:41
Visitem o sÃtio http://cseabra.utopia.com.br/poesia/.
Este português conseguiu reunir o melhor repertório de poesia erótica da rede. Tem muita coisa bonita por lá…
(e também engraçada, cÃnica ou debochada, claro!).
Vale o risco,até para os temerosos.
Comentário de joão — 18/7/08 | 08:56
A tradução é foda… “Não obstante”!!!!!!!!
Comentário de Ernâni Getirana — 18/7/08 | 14:59
Chega de sexo em literatura. Ninguém mais aguenta, por exemplo, o chato do Rubem Fonseca. F…!!!!
Comentário de Maria Aparecida Ribeiro da Silva — 24/7/08 | 11:35
Bom, aqui onde moro só escrevendo em outra lÃngua mesmo, porque, em português, um júri seria instaurado na hora e me escomungariam!….empora fosse ficção!….