O desacordo ortográfico e a literatura
Um capÃtulo decisivo dessas relações transnacionais foi a consagração de GarcÃa Lorca em Buenos Aires, em 1932, não evitando, porém, que Jorge Luis Borges o antagonizasse e chamasse de “andaluz profissionalâ€. Borges, por sua vez, freqüentava grupos literários argentinos de vanguarda, influenciados por DarÃo. Na ocasião, Lorca acolhia Neruda, que reconheceria a importância desse encontro em sua Ode a GarcÃa Lorca. Neruda, por sua vez, hostilizava César Vallejo, acusando ainda Vicente Huidobro de contribuir para essa ruptura. No inÃcio da guerra civil espanhola, emergia para a vida literária Octavio Paz, em um momento em que se confundiam criação e resistência antifascista. Por conta de divergências na organização de uma antologia de autores hispano-americanos, Paz e Neruda acabariam pegando-se em um banquete (o registro desse e outros episódios, em Sombras de Obras de Paz).
Uma geração de espanhóis influenciada por um nicaragüense; o poeta de maior prestÃgio dessa geração hostilizado por um argentino, o que não o impediu de fascinar a um chileno rompido com um peruano, em um ambiente literário que logo receberia a um mexicano. Tais episódios podem parecer um registro menor, da petite histoire. Mas a série de aproximações e afastamentos entre poetas de diferentes paÃses, porém da mesma lÃngua, do começo do século XX até hoje, constitui uma rede de afinidades e antagonismos, atração e distanciamento, de evidente relevância. Decisiva para que Octavio Paz, a uma dada altura de Os Filhos do Barro, pudesse declarar: Meu ponto de vista é parcial: é o ponto de vista de um poeta hispano-americano. Note-se: poeta hispano-americano, e não apenas mexicano.
Esse artigo de Claudio Willer na revista Agulha é, entre todos os que já li, a mais lúcida e ponderada defesa do acordo de unificação ortográfica da lÃngua portuguesa sob o ponto de vista da circulação de obras literárias. A comparação com o espanhol, que tem uma só ortografia pairando sobre sua mirÃade de nacionalidades e idiossincrasias locais, é irrespondÃvel – ou quase isso. Será que uma obra ao mesmo tempo tão latino-americana e tão cosmopolita como a do genial Roberto Bolaño poderia ter germinado longe desse solo de influências cruzadas que Willer descreve nos parágrafos acima?
Agora que o acordo parece uma questão de tempo, com todos os seus transtornos para a vida prática e suas compensações à primeira vista magras, talvez tenha chegado a hora de promover um debate público com mais profundidade – embora os escritores brasileiros não gostem muito de debates públicos e menos ainda de profundidade. Em Portugal, sabe-se que José Saramago é simpático ao acordo ortográfico e António Lobo Antunes lhe torce o nariz. E aqui?
Quando eu digo que a comparação usada por Willer é “quase†irrespondÃvel, estou pensando no clamoroso abismo existente entre os perfis internacionais do espanhol e do português – perfis que se refletem, sim, na ortografia, mas que a antecedem e a ultrapassam, como o próprio autor reconhece. Mexer em uns poucos acentos e letras dobradas do português é arranhar a superestrutura do problema, enquanto uma enorme base de indiferença e até de hostilidade cultural permanece intocada. Resta decidir se não será, mesmo assim, um bom começo.
