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	<title>Todoprosa</title>
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	<description>Literatura, ficção, crítica, palavras</description>
	<pubDate>Wed, 20 Aug 2008 20:06:34 +0000</pubDate>
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		<title>Ainda Kafka: a barata que não era</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Aug 2008 16:06:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[A recente aparição de Franz Kafka neste blog, embora talvez motivada por interesses menores (de um crítico inglês, não meus, como se pode conferir aqui embaixo), teve pelo menos um efeito divertido: o leitor Eric Novello explorou num comentário certa ambigüidade semântica característica do português brasileiro para declarar:
Nunca mais verei a barata do Kafka da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A recente aparição de Franz Kafka neste blog, embora talvez motivada por interesses menores (de um crítico inglês, não meus, como se pode conferir <a href="http://sergiorodrigues.ig.com.br/o-que-kafka-fazia-no-banheiro"target="_blank">aqui embaixo</a>), teve pelo menos um efeito divertido: o leitor Eric Novello explorou num comentário certa ambigüidade semântica característica do português brasileiro para declarar:</p>
<blockquote><p><i>Nunca mais verei a barata do Kafka da mesma forma!</i></p></blockquote>
<p>Claro que a piada seria inviável se Gregor Samsa tivesse virado um besouro. Acontece que virou – e agora estou falando sério. A discussão sobre qual bicho é aquele da novela “A metamorfose” não é brincadeira. </p>
<p>No primeiro parágrafo do livro, em que o Samsa insetificado faz sua brusca entrada em cena, Kafka é vago. O original fala em <i>ungeheueren Ungeziefer</i>, que quem conhece alemão – não é o meu caso – garante ser algo como “monstruoso inseto repulsivo”.</p>
<p>Em outros pontos da narrativa, porém, ligeiras pistas morfológicas parecem indicar que Kafka se refere a um inseto da família dos coleópteros, sem maiores detalhes além de suas dimensões avantajadas de monstro. Essa família inclui diversos tipos de besouro, joaninhas e vagalumes. Baratas não.</p>
<p>Para se ter uma idéia da gravidade dessa questão líterário-zoológica, ninguém menos que Vladimir Nabokov, admirador de “A metamorfose”, lhe deu atenção num <a href="http://victorian.fortunecity.com/vermeer/287/nabokov_s_metamorphosis.htm"target="_blank">ensaio-conferência sobre o livro </a>(em inglês, acesso livre). Segundo o autor de “Lolita”, há na novela de Kafka apenas um personagem que chama Samsa de <i>Mistkäfer</i>, isto é, besourão, escaravelho, rola-bosta: a velha empregada da família. Mas Nabokov observa que a mulher provavelmente está tentando ser “simpática” – a realidade seria mais repugnante:</p>
<blockquote><p><i>Ele não é, tecnicamente, um escaravelho. É apenas um </i>beetle<i> grande. (Devo acrescentar que nem Gregor nem Kafka enxergavam o bicho muito claramente.)</i></p></blockquote>
<p>Vale ressaltar que a palavra <i>beetle</i>, genérico de besouro em inglês, é usada de modo informal também para baratas – embora estas sejam de família diferente. Não sei se o mesmo ocorre em alemão. Será que a lenda da barata começou com um erro de tradução?</p>
<p>De todo modo, é evidente que uma certa indeterminação estava nos planos de Kafka. E talvez fosse inevitável que a barata, por sua liderança incontestável entre os bichos escrotos deste mundo, terminasse por pousar nessa obra-prima para nunca mais sair.</p>
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		<title>Deixadinha</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Aug 2008 18:20:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando João começou a namorar Letícia, todo mundo apostava numa relação de um mês ou dois, três no máximo. Ficava por aí a média dele. Galinha famoso na rede do Leblon que ambos freqüentavam, João era medíocre no vôlei de praia, mas compensava a insuficiência atlética com uma condição de semicelebridade artística – advinda de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando João começou a namorar Letícia, todo mundo apostava numa relação de um mês ou dois, três no máximo. Ficava por aí a média dele. Galinha famoso na rede do Leblon que ambos freqüentavam, João era medíocre no vôlei de praia, mas compensava a insuficiência atlética com uma condição de semicelebridade artística – advinda de sua inclusão numa antologia de jovens contistas, quatro anos antes – para ir ampliando um currículo amoroso que beirava o lendário.</p>
<p>Letícia, nova e inexperiente, jogava o fino na areia, com um talento especial para as deixadinhas, mas a verdade é que tinha tudo para ser só mais uma naquele placar.</p>
<p>O jogo começou a virar quando, surpreendendo o pessoal da praia, Letícia passou a bater bola com João no campo dele. Nos e-mails que trocavam diariamente, a menina, quem diria, se revelou talentosa também com as palavras.</p>
<p>João, que preferia namorar atletas justamente por se saber indefeso diante de intelectuais, acusou o golpe. Ponto a ponto, seu bloqueio foi virando uma peneira. O terceiro mês de namoro passou, veio o quarto. O quinto.</p>
<p>O sexto já ia pelo meio quando, ao pé de uma mensagem despretensiosa em que Letícia contava ter dormido mal na noite anterior, João leu o seguinte:</p>
<blockquote><p><i>O problema é que na janela do meu quarto há um defeito na cortina. Ela não corre e não se fecha portanto. Então a lua cheia entra toda e vem fosforescer de silêncios o quarto: é horrível.</i></p></blockquote>
<p>Essa última frase acertou a cabeça de João com o efeito de uma bolada à queima-roupa. Ainda atordoado, ele releu:</p>
<blockquote><p><i>Então a lua cheia entra toda e vem fosforescer de silêncios o quarto: é horrível.</i></p></blockquote>
<p>Com uma mistura de dor e delícia nunca antes sentida, João foi obrigado a admitir o óbvio: aquilo era melhor do que qualquer coisa que ele já tivesse escrito ou pudesse um dia escrever. Tamanha condensação de beleza e horror na mesma frase, tão seco drible na expectativa do leitor&#8230;</p>
<blockquote><p><i>&#8230;é horrível.</i></p></blockquote>
<p>Em poucos minutos, sua vida inteira estava traçada. Pediu Letícia em casamento na mesma noite. Ela aceitou.</p>
<p>Nunca deixaram de freqüentar a rede do Leblon onde se conheceram, nem durante a gravidez nem depois que Joãozinho nasceu e Letícia era obrigada a interromper o jogo a todo momento para dar de mamar.</p>
<p>O casamento parece ir muito bem, e hoje todo mundo na praia aposta que vai durar para sempre. Letícia doou a uma escola pública do bairro seu exemplar de <i>Água viva</i>, e de qualquer maneira, como ela tinha suspeitado desde o início, João nunca foi um grande leitor de Clarice. </p>
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		<title>Começos (ainda) inesquecíveis: Franz Kafka</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Aug 2008 13:08:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[E já que falamos no homem&#8230; Post publicado em 23/9/2006:
*
Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto.
Eis o primeiro parágrafo de “A metamorfose” (Civilização Brasileira, tradução de Brenno Silveira, 5.a edição, 1988), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Sem comentários.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href='http://sergiorodrigues.ig.com.br/wp-content/uploads/2008/08/kafka.jpg'><img src="http://sergiorodrigues.ig.com.br/wp-content/uploads/2008/08/kafka.jpg" alt="" title="kafka" width="141" height="181" class="alignleft size-full wp-image-686" /align="left"></a>E já que falamos no homem&#8230; Post publicado em 23/9/2006:</p>
<p>*</p>
<blockquote><p><i>Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto.</i></p></blockquote>
<p>Eis o primeiro parágrafo de “A metamorfose” (Civilização Brasileira, tradução de Brenno Silveira, 5.<sup>a</sup> edição, 1988), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Sem comentários.</p>
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		<title>Recorde</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Aug 2008 13:10:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[A palavra é...]]></category>

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		<description><![CDATA[A profusão de recordes batidos nos Jogos Olímpicos de Pequim e sua extensa cobertura põem em evidência uma dúvida de pronúncia que sempre acompanhou esse termo importado do inglês record. Afinal, devemos falar récorde, palavra proparoxítona, como a maioria dos locutores e comentaristas da TV? Ou, seguindo a recomendação de dez entre dez sábios, recórde, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A profusão de recordes batidos nos Jogos Olímpicos de Pequim e sua extensa cobertura põem em evidência uma dúvida de pronúncia que sempre acompanhou esse termo importado do inglês <i>record</i>. Afinal, devemos falar <i>récorde</i>, palavra proparoxítona, como a maioria dos locutores e comentaristas da TV? Ou, seguindo a recomendação de dez entre dez sábios, <i>recórde</i>, paroxítona?</p>
<p>Trata-se de um caso clássico em que a língua da vida real vai para um lado e a dos estudiosos para o outro. “Recorde”, estrangeirismo consagrado há décadas em todos os dicionários, pode ser substantivo – com o sentido de marca esportiva, desempenho a ser superado – ou adjetivo: tempo recorde, velocidade recorde. Até aí ninguém briga. A divergência começa na hora de definir a prosódia.</p>
<p>Em seu <i>Dicionário de palavras e expressões estrangeiras</i>, Luís Augusto Fischer observa com bom humor que há “duas pronúncias: a que os gramáticos preferem, <i>rre-CÓR-dji</i>, ou a do resto da humanidade, <i>RRÉ-cor-dji</i>”. É mais ou menos isso. Basta substituir, na frase de Fischer, “o resto da humanidade” por “a maioria dos brasileiros” que ela fica perfeita. Em Portugal, os falantes se inclinam por <i>recórde</i>. Uma possível explicação para o descompasso: os portugueses manteriam a pronúncia que <i>record</i> ganhou na França, de onde importaram o anglicismo por tabela; aqui, haveria uma ligação direta com o idioma de origem.</p>
<p>Como a língua falada sempre tem precedência sobre a escrita, é possível que um dia tal desacordo entre grafia e pronúncia seja resolvido com o acréscimo de um acento agudo. Mas também não é impossível que se eternize como idiossincrasia, algo comum na zona de fronteira das palavras que migram de um idioma a outro. Se show virou um vocábulo corriqueiro sem que sua estrangeiríssima grafia fosse – como provavelmente jamais será – adaptada, tudo pode acontecer.</p>
<p><i>Publicado na “Revista da Semana”.</i></p>
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		<title>O que Kafka fazia no banheiro</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Aug 2008 14:38:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[É mais enrolada do que parece a última polêmica “literária” européia, que põe de um lado uma tropa de críticos de língua alemã e do outro, sozinho, o acadêmico e escritor inglês James Hawes, que publicou ontem a biografia “Excavating Kafka”, sobre o escritor tcheco (aqui, em inglês, acesso livre).
Sem ler o livro é impossível [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É mais enrolada do que parece a última polêmica “literária” européia, que põe de um lado uma tropa de críticos de língua alemã e do outro, sozinho, o acadêmico e escritor inglês James Hawes, que publicou ontem a biografia “Excavating Kafka”, sobre o escritor tcheco (<a href="http://www.guardian.co.uk/books/2008/aug/15/franzkafka.germany"target="_blank">aqui</a>, em inglês, acesso livre).</p>
<p>Sem ler o livro é impossível opinar sobre quem tem razão, se é que alguém tem, mas o resumo do arranca-rabo, em três tempos, é o seguinte:</p>
<p>1. Hawes dá destaque ao fato de Kafka ter sido assinante de revistas pornográficas chiques, algumas, segundo ele, de arrepiar.</p>
<p>2. Os kafkólogos de língua alemã se unem para acusar Hawes de puritanismo, marquetagem e até, de forma que parece um tanto obscura, anti-semitismo. Alegam que as revistas eram adultas, mas traziam imagens estilizadas, &#8220;artísticas&#8221; e não pornográficas.</p>
<p>3. Hawes contra-ataca falando em “conspiração de censura” e dizendo que seu foco não é bem o gosto de Kafka por pornografia, mas o fato de que gerações de críticos e biógrafos, tendo examinado com lupa cada bilhete banal jamais escrito pelo gênio de Praga na tentativa de decifrar sua personalidade esquisitona, tenha feito silêncio sobre um dado tão suculento.</p>
<p>Hmm. Em primeiro lugar, mesmo admitindo em tese que informações biográficas possam, sim, jogar alguma luz sobre a obra de escritores, especialmente de escritores tão originais quanto Kafka, confesso que minha primeira reação diante desses “escavadores” de segredos cabeludos é um bocejo de tédio.</p>
<p>Em segundo lugar vem a surpresa: então alguém se espanta de que Franz, com aquela cara, fosse chegado a um XXX? Em que mundo vivem essas pessoas?</p>
<p>O item 3 parece ser o que faz mais sentido nessa polêmica. Infelizmente, Hawes <a href="http://blogs.guardian.co.uk/books/2008/08/kafkas_guilty_pleasures.html"target="_blank">enfraquece sua própria posição </a>ao dizer, sobre as revistas de Kafka, que “algumas coisas são bem pesadas, como animais cometendo <i>fellatio</i> e mulher-com-mulher”. Ao igualar bestialismo e homossexualismo, o cara deixa a impressão de que é mesmo um puritano, afinal.</p>
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		<title>O pensamento voa, as palavras andam</title>
		<link>http://sergiorodrigues.ig.com.br/o-pensamento-voa-as-palavras-andam</link>
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		<pubDate>Thu, 14 Aug 2008 14:08:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Gosto de livros de citações. Seria cômodo dizer que minha eterna busca de frases espirituosas sobre o ato de escrever, provocada pela necessidade de renovar pelo menos uma vez por semana a epígrafe do Todoprosa, me levou a uma convivência íntima com eles. Mas é mais honesto reconhecer que não foi essa a ordem dos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gosto de livros de citações. Seria cômodo dizer que minha eterna busca de frases espirituosas sobre o ato de escrever, provocada pela necessidade de renovar pelo menos uma vez por semana a epígrafe do <b>Todoprosa</b>, me levou a uma convivência íntima com eles. Mas é mais honesto reconhecer que não foi essa a ordem dos fatores. </p>
<p>Há um modo melhor e um modo pior de apreciar um livro desses. O pior é transformá-lo em algo próximo do vire-um-super-algo-em-dez-lições, um depósito de sabedoria concentrada que vai “direto ao ponto” – sendo o ponto, naturalmente, o aprendizado, o lucro ou a redenção do leitor. Para muita gente, não faz sentido ler coisa alguma se tal perspectiva contábil ou salvacionista não estiver no horizonte. E se os manuais de auto-ajuda são mais úteis pelo lado prático, coleções de frases gozam de boa reputação como instrumento aplicador de verniz e repositório de lições de moral. Provêm o cidadão de uma erudição de laboratório nada insatisfatória quando se sabe que a erudição propriamente dita dá um trabalho danado, além de poder tornar o sujeito um ermitão, um esquisito.</p>
<p>Já a maneira melhor de ler um livro desses é ver nele um jogo, um jogral em que idéias e modos de expressão conversam, concordando, se emendando, quebrando o pau, ao longo dos séculos:</p>
<p>“Ninguém que nunca saiu de seu país jamais escreveu algo digno de ser publicado. Nem mesmo nos jornais”, disse Ernest Hemingway em 1926. Logo seria desmentido por Nelson Rodrigues, que não arredava pé do Rio e se orgulhava disso: “Em Bangu eu já me sinto num exílio de Gonçalves Dias”.</p>
<p>Da Alemanha, em 1826, disse Goethe: “Aquele que não espera ter um milhão de leitores não deveria escrever uma linha”. Ao que respondeu o americano Gore Vidal, século e meio depois: “Idealmente o escritor só precisa ter como audiência os poucos que o entendem. É cobiça e falta de modéstia querer mais”.</p>
<p>E o que dizer da provocação feita pelo ensaísta escocês Thomas Carlyle em 1832, atirando na explosão do jornalismo e acertando bem na testa de nossos tempos digitais? “Considerando a multidão de mortais que manejam a pena nos dias de hoje, a maioria dos quais sabe soletrar e escrever sem violentar demais a gramática, a pergunta emerge naturalmente: como é possível, então, que nenhum trabalho provenha deles com um selo qualquer de autenticidade e permanência, capaz de durar mais que um dia?”</p>
<p>No fim das contas, esquadrinhar livros de citações em busca do que eles dizem sobre a literatura, sobre escrever, talvez seja mais do que uma obsessão pessoal. É possível que aí, no espelho da metalinguagem, resida a alma dessas obras. </p>
<p>Com prazer, em certa esquina do salão de espelhos reencontro uma boa tirada do escritor francês Julien Green (1900-1998): “O pensamento voa e as palavras andam a pé. Esse é todo o drama do escritor”.</p>
<p>Tem uma bela verdade nessa metáfora motora, não tem? A meu ver, tem um belo furo também: o tal descompasso de velocidades é o drama de quem escreve qualquer coisa, não propriamente do escritor. O escritor é um sujeito treinado para driblar esse problema. Donde se conclui que o fato de o pensamento ter asas e as palavras serem pedestres, longe de ser seu drama, é justamente seu ganha-pão.</p>
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		<title>De Kindles e boitatás</title>
		<link>http://sergiorodrigues.ig.com.br/o-kindle-e-a-mula-sem-cabeca</link>
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		<pubDate>Tue, 12 Aug 2008 17:13:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[As conversas sobre o livro na era eletrônica, tema da reportagem que recomendei no post de ontem, têm muito a ganhar com esta nota do site nova-iorquino “Gawker” sobre o Kindle, a maior aposta – ao lado do Sony Reader – de quem acredita, discordando de Steve Jobs, que aparelhos eletrônicos dedicados à leitura vão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As conversas sobre o livro na era eletrônica, tema da reportagem que recomendei no post de ontem, têm muito a ganhar com <a href="http://gawker.com/5035497/the-kindle-is-the-sasquatch-of-the-book-world"target="_blank">esta nota</a> do site nova-iorquino “Gawker” sobre o <a href="http://www.newsweek.com/id/70983"target="_blank">Kindle</a>, a maior aposta – ao lado do <a href="http://sergiorodrigues.ig.com.br/cad-o-ipod-dos-livros"target="_blank">Sony Reader</a> – de quem acredita, discordando de <a href="http://sergiorodrigues.ig.com.br/para-quando-e-o-mac-e-reader-mr-jobs"target="_blank">Steve Jobs</a>, que aparelhos eletrônicos dedicados à leitura vão revolucionar a indústria editorial em poucos anos:</p>
<blockquote><p><i>Já houve dezenas de supostas aparições, mas você ou alguém que você conhece já viu realmente um Pé-Grande – ou uma pessoa de verdade usando o leitor eletrônico de 400 dólares da Amazon? Sim, o Citigroup informa que as vendas estão “melhores do que se esperava” e prevê que “a Amazon venderá até 380 mil Kindles em 2008, bem acima da previsão inicial de 190 mil”. Pensamento positivo? Papo de maluco? Nós exigimos provas fotográficas autênticas.</i> </p></blockquote>
<p>Sim, o “Gawker” tem um tom venenoso, <i>bitchy</i>, no limite da irresponsabilidade – essa é uma de suas atrações. Erra bastante. E acerta muito também.</p>
<p>(A propósito: de maluco ou não, e ao contrário do que sugeriu um leitor ontem, essa conversa toda me parece bem distante do <a href="http://www.cronopios.com.br/site/internet.asp?id=3448"target="_blank">seminário</a> dedicado a discutir a “web literária”, blogs de escritores etc., que o site &#8220;Cronópios&#8221; está promovendo a partir de hoje em São Paulo.) </p>
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		<item>
		<title>Link para o ‘Link’</title>
		<link>http://sergiorodrigues.ig.com.br/link-para-o-%e2%80%98link%e2%80%99</link>
		<comments>http://sergiorodrigues.ig.com.br/link-para-o-%e2%80%98link%e2%80%99#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 11 Aug 2008 19:00:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[O caderno de informática do “Estadão”, o Link, traz hoje, em quatro páginas, a mais completa e arejada reportagem que já vi na imprensa brasileira sobre todas as questões que envolvem o livro na era digital, assinada por Bruno Galo.  
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O caderno de informática do “Estadão”, o <i>Link</i>, traz hoje, em quatro páginas, a mais completa e arejada <a href="http://www.link.estadao.com.br/index.cfm?id_conteudo=14337"target="_blank">reportagem</a> que já vi na imprensa brasileira sobre todas as questões que envolvem o livro na era digital, assinada por Bruno Galo.  </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Começos (ainda) inesquecíveis: Will Self</title>
		<link>http://sergiorodrigues.ig.com.br/comecos-ainda-inesqueciveis-will-self</link>
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		<pubDate>Sun, 10 Aug 2008 12:55:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Nem só de clássicos vivem os começos inesquecíveis. Post publicado em 11/3/2007:
*
Bull, um rapaz encorpado e musculoso, acordou certa manhã e não levou muito tempo para se dar conta de que, enquanto dormia, adquirira uma outra característica sexual primária: a saber, uma vagina.
A vagina brotara atrás de seu joelho esquerdo, dentro da covinha macia e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href='http://sergiorodrigues.ig.com.br/wp-content/uploads/2008/08/willself.jpg'><img src="http://sergiorodrigues.ig.com.br/wp-content/uploads/2008/08/willself.jpg" alt="" title="willself" width="143" height="169" class="alignleft size-full wp-image-679" /align="left"></a>Nem só de clássicos vivem os começos inesquecíveis. Post publicado em 11/3/2007:</p>
<p>*</p>
<blockquote><p><i>Bull, um rapaz encorpado e musculoso, acordou certa manhã e não levou muito tempo para se dar conta de que, enquanto dormia, adquirira uma outra característica sexual primária: a saber, uma vagina.</p>
<p>A vagina brotara atrás de seu joelho esquerdo, dentro da covinha macia e flexível localizada no ponto onde terminam os tendões. É quase certo que Bull não a perceberia tão cedo, não tivesse ele como prioridade, logo ao despertar, o hábito de se inspecionar, explorando cuidadosamente todas as suas curvas e fendas.</i></p></blockquote>
<p>Qualquer semelhança com Kafka não é coincidência. Nem plágio. Este é o início do primeiro capítulo, chamado justamente <i>A metamorfose</i>, da novela “Bull, uma farsa”, que compõe com “Cock, uma noveleta” o livro “Cock &#038; Bull – Histórias para boi dormir”, do escritor inglês Will Self (Geração Editorial, tradução de Hamilton dos Santos, 2.<sup>a</sup> edição, 2002). Em “Cock”, em perfeita simetria, é a protagonista que um belo dia descobre entre as pernas um recém-brotado pau. Satirista feroz e, nos melhores momentos, brilhante em sua mistura de erudição, grosseria e delírio pop, Self é um autor bem estabelecido na literatura britânica, mas nunca deu certo no Brasil.</p>
<p>Não por falta de tentativas. Além deste livro, a Geração lançou o violentíssimo “Minha idéia de diversão”; a Objetiva, o divertido “Como vivem os mortos”; e a Alfaguara, ano passado, o engenhoso – mas um tanto esticado – “Grandes símios”. (Permanece inédito por aqui o livro de estréia de Self, <i>The quantity theory of insanity</i>, “A teoria quantitativa da insanidade”, de contos, que considero seu melhor trabalho.)</p>
<p>Apesar da insistência louvável dos editores, tudo indica que Will Self não bate muito bem com a sensibilidade literária nacional. Será que a sisudez que por aqui costumamos confundir com seriedade nos impede de apreciar o mais alucinado dos herdeiros de Jonathan Swift? Seja como for, é uma pena. Will Self merece uma chance dos leitores, embora não faça literatura para o paladar de qualquer um.</p>
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		<title>Olimpíadas</title>
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		<pubDate>Sat, 09 Aug 2008 12:02:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Quem não sabe que as Olimpíadas da era moderna, disputadas desde 1896, herdaram seu nome e seu ideal de confraternização dos jogos que se realizavam na cidade de Olímpia, na Grécia Antiga? No sítio arqueológico da velha Olímpia, tombado pela Unesco, a tocha é acesa de quatro em quatro anos antes de ser conduzida ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quem não sabe que as Olimpíadas da era moderna, disputadas desde 1896, herdaram seu nome e seu ideal de confraternização dos jogos que se realizavam na cidade de Olímpia, na Grécia Antiga? No sítio arqueológico da velha Olímpia, tombado pela Unesco, a tocha é acesa de quatro em quatro anos antes de ser conduzida ao país-sede da vez. Mas o que eram aqueles jogos é algo pouco lembrado, mesmo em momentos olímpicos.</p>
<p>O festival de Olímpia, realizado no verão a cada quatro anos a partir do século 8 a.C., era o mais importante dos quatro grandes festivais pan-helênicos, que atraíam levas de visitantes e celebravam a unidade grega  acima das divisões em Estados. O Barão de Coubertin não criou do zero sua ideologia de integração entre os povos. O <i>Dicionário Oxford de Literatura Clássica</i> diz que “por ocasião do festival proclamava-se uma trégua sagrada (<i>ekekheiria</i>), graças à qual concedia-se um salvo-conduto aos viajantes a caminho de Olímpia”.</p>
<p>Tudo começou com uma corrida de 183 metros, à qual se somaram com o tempo uma prova de longa distância, o pentatlo, o pugilismo e as corridas de bigas. O sucesso dos jogos pode ser medido pelo estádio que os abrigava, com capacidade para 40 mil pessoas sentadas. Mas a festa atraía também um grande número de poetas, músicos e comerciantes de cavalos à cidade, célebre pela monumental estátua de Zeus esculpida por Fídias, a mais famosa da Antiguidade.</p>
<p>Os atletas vencedores ganhavam apenas uma coroa de louros, mas, de volta às suas cidades, eram tratados como reis – um prêmio habitual era alimentação gratuita pelo resto da vida. Já naquele tempo, nem sempre prevalecia o espírito olímpico: o historiador Pausânias conta a história de um pugilista que se apresentou atrasado para a luta, quando seu adversário já era coroado por w.o., e cobriu-o de pancadas nas barbas dos juízes.</p>
<p><i>Publicado na “Revista da Semana”.</i></p>
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		<title>Vallejo queria ser Bernhard</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Aug 2008 14:39:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Vallejo não consegue, salvo em uma ou outra passagem, fazer com que seus argumentos mereçam ser ouvidos como mais do que uma piada de mau gosto. Pior: não convence de que sua argumentação é tão sólida e fundamentada quanto a de um pré-adolescente. E não é que seus alvos mereçam muito crédito. (&#8230;) Só que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><i>Vallejo não consegue, salvo em uma ou outra passagem, fazer com que seus argumentos mereçam ser ouvidos como mais do que uma piada de mau gosto. Pior: não convence de que sua argumentação é tão sólida e fundamentada quanto a de um pré-adolescente. E não é que seus alvos mereçam muito crédito. (&#8230;) Só que a prosa de Vallejo é pobre demais para fazer valer suas idéias. Ora, da mesma forma que um ditador pode chegar ao poder apenas com seu talento oratório, para subjugar quem o escuta, um romancista depende de seu talento para converter o leitor em seguidor.(&#8230;) Vallejo se limita a clamar e insultar, a vomitar bravatas sem se preocupar com qualquer forma narrativa. Há poucas variações de tom; o texto segue um ritmo monocórdio e modorrento.(&#8230;) Se a intenção era ser um Thomas Bernhard, Fernando Vallejo não conseguiu ir além de Marcelo Mirisola.</i></p></blockquote>
<p>Trechos da <a href="http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&#038;modelo=2&#038;secao=25&#038;lista=0&#038;subsecao=0&#038;ordem=2278"target="_blank">resenha </a>de Jonas Lopes sobre “O despenhadeiro”, do colombiano Fernando Vallejo, no &#8220;Rascunho&#8221; de agosto.</p>
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		<title>Dan Brown, personagem de Umberto Eco?</title>
		<link>http://sergiorodrigues.ig.com.br/dan-brown-personagem-de-umberto-eco</link>
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		<pubDate>Thu, 07 Aug 2008 19:20:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[PARIS REVIEW: O senhor leu “O código Da Vinci”?
UMBERTO ECO:  Sim, sou culpado disso também.
PR: Esse romance parece um subproduto bizarro de “O pêndulo de Foucault”.
ECO: O autor, Dan Brown, é um personagem de “O pêndulo de Foucault”! Eu o inventei. Ele tem as mesmas fascinações dos meus personagens – a conspiração mundial de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><i>PARIS REVIEW: O senhor leu “O código Da Vinci”?</p>
<p>UMBERTO ECO:  Sim, sou culpado disso também.</p>
<p>PR: Esse romance parece um subproduto bizarro de “O pêndulo de Foucault”.</p>
<p>ECO: O autor, Dan Brown, é um personagem de “O pêndulo de Foucault”! Eu o inventei. Ele tem as mesmas fascinações dos meus personagens – a conspiração mundial de rosa-cruzes, maçons e jesuítas. O papel dos Cavaleiros Templários. O segredo hermético. O princípio de que tudo está interligado. Suspeito que Dan Brown nem exista.</i></p></blockquote>
<p>Essa é a parte mais divertida da <a href="http://www.theparisreview.org/viewmedia.php/prmMID/5856"target="_blank">entrevista de Umberto Eco à “Paris Review” </a>(em inglês, acesso gratuito à primeira parte). Gostei de saber que o livro de Dan Brown parece um subproduto daquele romance decepcionante que Eco lançou depois do ótimo “O nome da rosa”.  Se o original já era duro de engolir, “O código Da Vinci” não me pega mais. (Ou será que, aliviado da carga de pretensão que verga o livro do escritor italiano, ele pode ter ficado até mais simpático? Eis um mistério que prefiro não investigar.)</p>
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		<title>O Consórcio</title>
		<link>http://sergiorodrigues.ig.com.br/o-consorcio</link>
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		<pubDate>Wed, 06 Aug 2008 13:59:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[O que você tem lido ultimamente?
Pouco. Tenho lido pouco.
Entende o que eu quero dizer?
Pra ser honesto, acho que não estou captando bem.
Pois você acaba de me dizer que tem lido pouco. Você, o maior leitor que eu conheço. O cara que leu Proust inteiro, que leu Euclides, a única pessoa do Brasil que leu a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O que você tem lido ultimamente?</p>
<p>Pouco. Tenho lido pouco.</p>
<p>Entende o que eu quero dizer?</p>
<p>Pra ser honesto, acho que não estou captando bem.</p>
<p>Pois você acaba de me dizer que tem lido pouco. Você, o maior leitor que eu conheço. O cara que leu Proust inteiro, que leu Euclides, a única pessoa do Brasil que leu a Geração Noventa de cabo a rabo&#8230;</p>
<p>E daí, meu caro? São fases.</p>
<p>Que fases, que nada. É o Zeitgeist. No fundo, você sabe muito bem que ninguém lê mais quase nada e vai ler cada vez menos. É só cruzar essa queda na disposição para a leitura com a explosão do outro lado, a progressão geométrica das coisas que existem por aí implorando para ser lidas, e pronto. </p>
<p>Pronto?</p>
<p>Pronto. Babau. Colapso. </p>
<p>Lamento dizer que você está apocalíptico demais pro meu gosto.</p>
<p>E eu lamento dizer que você está tapado demais pro meu gosto. Presta atenção, rapaz. Tem cada vez mais gente escrevendo, certo? E cada vez menos gente lendo, certo? O que essas duas curvas te dizem sobre o futuro? Evidente que estamos vendo o fim de uma era, mas não é isso que me interessa. Me interessa o que vem depois.</p>
<p>E o que vem depois seria o tal Consórcio&#8230;</p>
<p>O Grande Consórcio Nacional de Escritores, exatamente. </p>
<p>Então explica devagar, que eu sou tapado.</p>
<p>Não podia ser mais simples. Sabe o velho consórcio de carro? É a mesma coisa. O cidadão entra de sócio, paga uma mensalidade, vai pagando, pagando. Até o dia que é sorteado.</p>
<p>E aí ele ganha&#8230;</p>
<p>Ganha leitores, claro. Centenas, milhares de leitores. Isso no início. Com o passar do tempo, milhões, por que não? Acho que dá para projetar uma chegada aos sete dígitos pra daqui a cinco anos. Sete no máximo.</p>
<p>Sei, sei. E a essa altura você vai ser mais rico que o Eike Batista.</p>
<p>Não sei se mais rico, mas alguma coisa em torno disso.</p>
<p>E pode me dizer como você pretende dar um prêmio tão arisco, um caminhão de leitores? Como controlar uma coisa dessas? </p>
<p>Não me decepcione, rapaz. Não é óbvio? Os leitores são justamente os outros consorciados. Os outros escritores, os que aguardam a vez. Quer leitores melhores? Eles são obrigados a ler, não têm escolha. Primeiro, porque o contrato que assinaram ao entrar para o Consórcio os obriga a isso. Segundo, porque estão pagando por essa brincadeira. Terceiro, pelo próprio sentimento de irmandade, de corporativismo que permeia a coisa toda.</p>
<p>Acho que estou entendendo. Admito que a idéia é curiosa, mas você não pode garantir que, mesmo tendo assinado um contrato, todo mundo vai ler o escritor sorteado. E se trapacearem, lerem só a orelha, a primeira e a última página?</p>
<p>E que importância tem isso? Não é assim também na vida real? Importa menos a um escritor ser lido de fato, o fundamental é que todo mundo diga que leu, e isso o GCNE garante de forma absolutamente cristalina. </p>
<p>Compreendo.</p>
<p>Numa segunda fase, aí sim, o GCNE vira GCME, mas isso é projeto para dez anos.</p>
<p>GCME?</p>
<p>Grande Consórcio Mundial de Escritores.</p>
<p>Ah, claro. E a essa altura eu imagino que o Eike Batista&#8230;</p>
<p>Ai, que Batista? Mas quem é esse cara? </p>
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		<title>Soljenitsin, o dissidente giratório</title>
		<link>http://sergiorodrigues.ig.com.br/solzhenitsyn-o-dissidente-giratorio</link>
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		<pubDate>Mon, 04 Aug 2008 14:53:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[A morte do escritor russo Alexander Soljenitsin, aos 89 anos, domingo, fez a imprensa lembrar em coro que o vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 1970, autor de “Arquipélago Gulag”, foi o maior adversário do extinto regime soviético no campo das letras, o mais famoso dos dissidentes. O que, acrescento eu, é ao mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A morte do escritor russo Alexander Soljenitsin, aos 89 anos, domingo, fez a imprensa lembrar em coro que o vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 1970, autor de “Arquipélago Gulag”, foi o maior adversário do extinto regime soviético no campo das letras, o mais famoso dos dissidentes. O que, acrescento eu, é ao mesmo tempo sua glória e sua danação. Morto o regime, e descontado o interesse histórico que seus livros possam gerar, por que alguém leria Soljenitsin? Eu nunca li, nunca senti falta. Está certo que tenho lacunas enormes na estante, mas também já li coisas tão datadas quanto A.J. Cronin e José Mauro de Vasconcelos. Parece que não estou sozinho. O <a href="http://www.moscowtimes.ru/article/600/42/369534.htm" target="_blank">“Moscow Times” </a>diz que as novas gerações russas também não o lêem.</p>
<p>Mas existe um lado menos, vamos dizer, programático, previsível e politicamente correto em Soljenitsin, um lado que o torna ao mesmo tempo mais intratável e mais interessante. O homem não era apenas um dissidente soviético. Era também um dissidente do Ocidente. Com aquela loucura bem russa, nacionalista e mística, não muito diferente da de Dostoiévski, proferiu em 1978 um famoso discurso na Universidade de Harvard em que enunciou, entre outras, as seguintes pérolas liberticidas, que devem ter feito Karl Rove roer de inveja os próprios dedinhos roliços:</p>
<blockquote><p><em>Na sociedade ocidental de hoje, revelou-se a desigualdade entre a liberdade para as boas ações e a liberdade para as más ações. Um estadista que queira realizar algo importante e altamente construtivo para seu país precisa agir cautelosamente, até mesmo timidamente; existem milhares de críticos afoitos e irresponsáveis à sua volta, o parlamento e a imprensa o rechaçam. À medida que avança, ele é obrigado a provar que cada um de seus passos é consistente e absolutamente impecável. (&#8230;) Desse modo, a mediocridade triunfa sob a desculpa das restrições impostas pela democracia.</p>
<p>A defesa dos direitos individuais chegou a tais extremos que tornou a sociedade como um todo indefesa diante de certos indivíduos. Chegou a hora, no Ocidente, de defender menos os direitos humanos e mais as humanas obrigações.</p>
<p>O criminoso pode ficar impune ou ser tratado com leniência indevida, apoiado por milhares de defensores públicos. Quando um governo começa uma luta sincera contra o terrorismo, a opinião pública imediatamente o acusa de violar os direitos civis dos terroristas. Há muitos casos desse tipo.</em></p></blockquote>
<p>Como assim? Então a mais famosa vítima de uma ditadura defendia regimes de exceção? O discurso deu um nó na cabeça da intelectualidade ocidental, que quatro anos antes recebera Soljenitsin festivamente como um herói da liberdade, e contribuiu de modo decisivo para o duplo ostracismo em que ele mergulhou nos anos seguintes.</p>
<p>Acabo de ler o tal discurso – <a href="http://www.columbia.edu/cu/augustine/arch/solzhenitsyn/harvard1978.html" target="_blank">aqui, em inglês</a>. É, a meu ver, uma fieira de equívocos perigosos e atualíssimos. Mas não duvido que, ao dar nuances surpreendentes – e portanto mais humanas – a um personagem que o bipolarismo político do século 20 tentou tornar monocromático, acabe contribuindo para a sobrevivência literária de Soljenitsin. Eu, pelo menos, tive pela primeira vez vontade de ler o homem.</p>
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		<title>Começos (ainda) inesquecíveis: Vladimir Nabokov</title>
		<link>http://sergiorodrigues.ig.com.br/comecos-ainda-inesqueciveis-vladimir-nabokov</link>
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		<pubDate>Sun, 03 Aug 2008 12:11:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Pensamento ameno para alegrar o domingo: é claro que um dia – daqui a trezentos anos? três mil? – os começos inesquecíveis serão todos esquecidos. Mas este deverá ser um dos últimos. Post publicado em 24/7/2006:
*
Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href='http://sergiorodrigues.ig.com.br/wp-content/uploads/2008/08/vladimir-nabokov.jpg'><img src="http://sergiorodrigues.ig.com.br/wp-content/uploads/2008/08/vladimir-nabokov.jpg" alt="" title="vladimir-nabokov" width="137" height="199" class="alignleft size-full wp-image-672" /align="left"></a>Pensamento ameno para alegrar o domingo: é claro que um dia – daqui a trezentos anos? três mil? – os começos inesquecíveis serão todos esquecidos. Mas este deverá ser um dos últimos. Post publicado em 24/7/2006:</p>
<p>*</p>
<blockquote><p><i>Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.</p>
<p>Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.</i></p></blockquote>
<p>De uma família aristocrática que deixou a Rússia fugindo da Revolução de 1917, Vladimir Nabokov (1899-1977) se mudou para os Estados Unidos em 1940, depois de passar por Berlim e Paris. Já então um escritor maduro – e finíssimo – em sua língua materna, embora pouco conhecido do grande público, dedicou-se tanto a dominar literariamente o inglês que em 1955 lançou nada menos que “Lolita” (Companhia das Letras, 1994, tradução de Jorio Dauster). O escandaloso teor sexual do romance sobre o amor de um homem maduro por uma adolescente transformou Nabokov num estouro comercial. Talvez mais escandaloso que o tema, porém, seja um russo ter se tornado um dos maiores estilistas da história da língua inglesa – feito que, segundo as últimas medições, está fora do alcance de 99,98% dos bons escritores em seu idioma de berço. O famoso início de “Lolita” é uma boa amostra disso.</p>
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		<title>Gerundismo</title>
		<link>http://sergiorodrigues.ig.com.br/gerundismo</link>
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		<pubDate>Sat, 02 Aug 2008 12:12:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[A palavra é...]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma das qualidades do decreto de regulamentação dos call centers assinado pelo presidente Lula está numa ausência: o texto não procura banir do discurso dos atendentes o famigerado gerundismo. Quem não o conhece? “Vamos estar lhe enviando uma nova via.” Ao recusar o papel de patrulha da língua, a medida se distancia de um decreto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma das qualidades do decreto de regulamentação dos <i>call centers</i> assinado pelo presidente Lula está numa ausência: o texto não procura banir do discurso dos atendentes o famigerado gerundismo. Quem não o conhece? “<i>Vamos estar lhe enviando</i> uma nova via.” Ao recusar o papel de patrulha da língua, a medida se distancia de um decreto folclórico assinado ano passado pelo governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, proibindo o uso do gerúndio nas repartições públicas.</p>
<p>Longe de defender o gerundismo, trata-se de reconhecer que os costumes lingüísticos zombam das tentativas de controlá-los a canetadas. Além disso, o decreto de Arruda confunde gerundismo e gerúndio. O primeiro é um vício de expressão que pode ou não vir a se firmar na língua. O segundo, uma forma verbal usada por Camões que hoje viceja mais no Brasil que em Portugal. Seria absurdo que, combatendo a praga (olha o gerúndio aí), matássemos também a planta.</p>
<p>Neologismo ainda não dicionarizado, gerundismo tem sentido pejorativo. Nomeia e ao mesmo tempo critica o modismo que, depois de se firmar na fala burocrática em geral e na do telemarketing em particular, contaminou outros grupos sociais. Muita gente acredita que tenha nascido como tradução literal do inglês. No entanto, em contraste com o corriqueiro <i>we’ll be doing</i>, nosso “vamos estar fazendo” soa impreciso, empolado e formal – a menos que se refira a uma ação duradoura, em geral paralela a outra (“Se quiser me visitar amanhã, estarei esperando”).</p>
<p>Mesmo assim, atribuir o sucesso do gerundismo apenas à ignorância dos falantes pode ser um erro. Lingüistas como Sírio Possenti, da Unicamp, já observaram que o modismo corresponde a uma ética frouxa nas relações entre empresas e clientes, atenuando compromissos. “Vamos estar fazendo&#8230;” Quem? Quando? É tudo uma imprecisão só. </p>
<p><i>Publicado na “Revista da Semana”.</i></p>
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		<title>E por falar em alta cultura x cultura de massa&#8230;</title>
		<link>http://sergiorodrigues.ig.com.br/e-por-falar-em-alta-cultura-x-cultura-de-massa</link>
		<comments>http://sergiorodrigues.ig.com.br/e-por-falar-em-alta-cultura-x-cultura-de-massa#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 31 Jul 2008 19:23:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergio</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://sergiorodrigues.ig.com.br/?p=669</guid>
		<description><![CDATA[A lista dos 13 finalistas do Booker 2008 (em inglês, acesso gratuito) está provocando algum estupor por incluir “Criança 44”, de Tom Rob Smith, uma história de serial killer ambientada na Rússia de Stálin que a Record acaba de lançar por aqui.
Não, o romance – que já teve seus direitos para o cinema comprados por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A <a href="http://www.guardian.co.uk/books/2008/jul/30/bookerprize1"target="_blank">lista dos 13 finalistas do Booker 2008 </a>(em inglês, acesso gratuito) está provocando algum estupor por incluir “Criança 44”, de Tom Rob Smith, uma história de <i>serial killer</i> ambientada na Rússia de Stálin que a Record acaba de lançar por aqui.</p>
<p>Não, o romance – que já teve seus direitos para o cinema comprados por Ridley Scott – não deve ter a menor chance de levar o prêmio. Sim, o favorito é um velho conhecido da casa: Salman Rushdie, com “The Enchantress of Florence”.</p>
<p>Mesmo assim, Smith, um estreante de 29 anos, já fez história. É a primeira vez que um <i>thriller</i> assumidão, desavergonhado, penetra nesse clubinho.</p>
]]></content:encoded>
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