Escritores e zumbis
Toda semana, desde o inÃcio do mês passado, um capÃtulo do romance The living, uma história de zumbis, é publicado nesse site (em inglês, acesso gratuito), terminando com algum gancho tÃpico de folhetim ou telenovela – uma bifurcação no enredo. E aÃ, o cara vive ou morre? Como estamos na internet, quem decide de que forma a pergunta será respondida no capÃtulo seguinte é o leitor. Só depois de computados os votos é que o autor, o americano Kealan Patrick Burke, pode dar prosseguimento à história, e assim começa tudo de novo. (Dica do blog de livros do “Guardianâ€.)
A coisa é tão singela que tem sua simpatia, e o charme para quem vive buscando exemplos de casamento entre web e ficção é evidente. Mesmo assim, devo admitir que acho cada vez mais difÃcil entender o fascÃnio exercido por esse tipo de interatividade. Uma coisa é a experiência com histórias abertas, tridimensionais, que permitam ao leitor navegar em diversas direções – um modelo narrativo prenunciado por Julio Cortázar em “O jogo da amarelinha†e que a web parece equipada para levar a conseqüências interessantes um dia, embora ainda esteja longe disso.
Algo bem diferente é submeter o próprio processo de escrita a essas enquetezinhas populistas que infestam a rede. Escritor que é escritor assume suas escolhas, mesmo que precise morrer abraçado a elas. Se quer que algo fique aberto para o leitor decidir, tem técnicas para isso. Pode deixar aquela ponta solta ou escrever duas, cinco ou mais possibilidades. O que não pode – não se quiser continuar se chamando escritor – é lavar as mãos e consultar os “universitários†que o lêem.
Isso para não mencionar os momentos em que um autor é obrigado, para o bem de sua história, a fazer justamente o contrário do que os leitores desejam. Contrariá-los profundamente quando torcem, bocós, para que Romeu e Julieta sejam felizes para sempre. A tal web 2.0 se acha muito esperta, mas esqueceu o valor inestimável – estético, pedagógico, polÃtico, o diabo – da frustração.
Eu sei, eu sei: é só um joguinho. Se experiências do tipo The living abrirem mercado de trabalho para escribas, que sejam bem-vindas. Só não convém esquecer que serão sempre uma forma rebaixada de literatura.

Comentário de Pandora — 18/7/08 | 17:17
Adorei a frase e concordo plenamente:
“Escritor que é escritor assume suas escolhas, mesmo que precise morrer abraçado a elas.”
Comentário de christiane curioni — 18/7/08 | 17:47
O livro de todos, que começou com um capÃtulo do Moacyr Scliar, também funciona mais ou menos assim. É muito menos pretencioso do que vc imagina: só visa a estimular a leitura e a boa escrita. POr que não?
Comentário de Sérgio Rodrigues — 18/7/08 | 18:06
Christiane: o Livro de Todos é muito diferente do ‘The living’. Lembra mais (na verdade, é praticamente uma cópia) aquele projeto “A million penguins”, que comentei aqui ano passado. Uma obra coletiva, pura farra. De resultado estético obviamente pÃfio, mas e daÃ? Este aqui é diferente, tem “autor”.
Agora, não sou eu quem vê pretensão nesse tipo de coisa. Como eu disse, é só um joguinho. Mas você ficaria surpresa se soubesse quanta gente acha que é muito mais do que isso.
Comentário de Jorge spindola — 19/7/08 | 10:18
Eu fico imaginando os grandes mestres, esperando o resultado da ” pesquisa ” para terminar suas obras. Nao teriam sido OBRAS jamais.
Alem de concordar com a ideia que o autor deve morrer com suas conviccoes, lembro que o autor escreve para si, o publico gostar ou nao eh quartenario, ou alguem acha que novela da Globo eh literatura :
Comentário de Mey — 19/7/08 | 11:33
Sergio:Concordo em grau genero e número com vc.Eu
escrevo,e estou na batalha para editar um livro,e alguém já me sugeriu abrir a obra ao público na internet para que escolham o final ou finais alternativos.Seria como estraçalhar com minha criatividade.O que eu escrevi esta finalizado.Só mecho a tÃtulo de pesquisa,mas o rumo daquilo que criei já está traçado.Se der certo ou não…valeu a pena,perder tantas horas de sono trabalhando em algo que eu acredito.Como disseram aÃ,o que seria das grandes obras se tivessem que esperar por pesquisas.Não tenho essa pretensão de dizer que fiz uma grande obra,mas para mim foi um grande feito que espero compartilhar um dia com os que “gostem” e os que “detestem”.Um abraço.
Comentário de Pandora — 19/7/08 | 20:16
“Mecho” é licença poética?
Comentário de Mr. WRITER — 20/7/08 | 00:38
Agora eles podiam fazer, sei lá, tipo assim, um paredão, no pior estilo BBB…
Tipo, uns três autores disputando quem escreve a morte do fulano…
É cada um mesmo…
Comentário de Cezar Santos — 20/7/08 | 22:24
Sérgio, faço minhas suas palavras…
Comentário de Mey — 21/7/08 | 11:01
Não,dona Pandora,”mecho” foi um erro cometido por mim na hora de escrever o comentário.”Mexo” seria o correto.Vc por acaso é professora de português?Deve ter bastante trabalho na internet…tenha paciência,moça!
Pingback de Leituras e uma tirinha (# 6) « Eu e o Pop — 21/7/08 | 17:08
[...] Escritores e zumbis [...]
Comentário de Pandora — 21/7/08 | 20:14
=)
Comentário de Djako — 24/7/08 | 10:13
Pô, cara, a coisa tá só começando. Fica gelo, ô meu. Talvez isso até ajude a arte de escrever, pois o próprios leitores/escribas terão a oportunidade de exercer a auto crÃtica e ir cada vez mais se aprimorando na difÃcil arte de escrever. Mesmo assim acho que os bons continuarão sendo poucos.
Comentário de Monica — 5/8/08 | 22:29
O jogo de amarelinha, teorizado por tantos que pensaram os anos 70, teve o seu espaço na rede ate o final dos anos 90, uma era anterior aos blogs. Experiencias literarias arriscavam o novo espaço e eram encorajadas por programas, como o Storyspace. A maioria das experiencias ficou restrita ao universo academico e, no caso do Brasil, ao Nupill de Santa Catarina e ao wawrwt da unicamp. Mas, neste miolo, surgiu Eduardo Kac, que foi pra Nova Iorque e ganha premios internacionais. Nao sao experiencias do tipo The Living. Não foram, nem serao, uma forma rebaixada de literatura ou arte. Foram experiencias com o espaço das palavras escritas no formato digital. A relaçao entre a nao continuidade destas experiencias e os blogs merece ser pensada. Afinal, elas constituem duas formas de escrita digital.