Todoprosa por Sérgio Rodrigues
21/04/08 8:20h

Como falar dos blogs que lemos

Sobre “Como falar dos livros que não lemos?â€, do francês Pierre Bayard (Objetiva):

Faz diferença enfrentar Ulisses, algo que vai nos consumir meses ou anos, se o que “importa†é saber sobre o que o texto trata, qual sua relevância, quais foram suas inovações de linguagem, que lugar ele ocupa na história da literatura?

Se tais perguntas fossem realmente a sério, uma crítica inevitável a Como falar… seria a de que seu autor esquece aquilo que move a maioria dos leitores. Ou seja, o prazer, o medo, o impacto, o encantamento e todas as sensações que tiramos de um livro em si, concomitantemente à sua fruição, o que é imediato e anterior a qualquer elaboração intelectual. É isso o que ficou para mim, por exemplo, dos romances de mistério da Coleção Amarela que li pelos 12 ou 13 anos, dos quais é difícil lembrar até os títulos. Ou dos gibis de terror da editora Vecchi. Ou de centenas de histórias de Tio Patinhas, Bolinha e Marvel que deixaram a infância gloriosamente autista e colorida.

Mas Bayard está longe de ser tão óbvio. Mais que uma tese, seu livro é um exemplar acabado de prosa irônica, que usa um cinismo falso para, no fundo, fazer uma homenagem ao objeto que parece desconstruir. Argumentando o tempo todo que não é preciso ler, citando o tempo todo obras que supostamente só folheou ou ouviu a respeito – mas que, percebe-se logo, ele conhece em detalhes –, parecendo o tempo todo flertar com uma variante de auto-ajuda para emergentes culturais, o ensaio também pode ser interpretado como uma ode à natureza da leitura. Só que uma natureza nem sempre percebida: a de um conhecimento sempre individual, incomunicável, irredutível a qualquer fórmula, e que por isso mesmo é um dos mistérios mais fascinantes da vida.

Michel Laub, preciso como sempre, falando em seu jovem blog da rumorosa provocação de Bayard. Está me fazendo repensar a decisão que tomei na época do lançamento: não ler o livro para poder falar dele em seus próprios termos.


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