Todoprosa por Sérgio Rodrigues

Frase

  • Donald Barthelme “Escrevo muito - todo dia, sete dias por semana - e jogo muita coisa fora. Às vezes eu acho que escrevo para jogar fora; é um processo de destilação.†DONALD BARTHELME
23/07/08 16:30h

Littell, o melhor estrangeiro

Até o momento, não havia no Brasil nenhum prêmio que contemplasse os melhores livros estrangeiros. Eis um grande paradoxo no país da literatura “antropofágicaâ€.

Cunhambebe (nome de canibal) é esse prêmio. Num mercado em que o fato de ser estrangeiro parece fazer qualquer autor largar com algumas voltas de vantagem sobre a indiada, a iniciativa – mesmo se levarmos em conta o caráter simbólico da premiação – é curiosa. O primeiro vencedor, escolhido por uma comissão julgadora de respeito, é As Benevolentes, de Jonathan Littell (Alfaguara).

22/07/08 11:32h

O Google está mexendo no seu cérebro

Já não penso da mesma forma que costumava pensar. Percebo isso com maior nitidez quando estou lendo. Mergulhar num livro ou num artigo de fôlego era fácil. Minha mente era conduzida pela narrativa ou pelos contornos do argumento, e eu ficava horas passeando por longas extensões de prosa. Isso raramente ocorre agora. Hoje minha concentração quase sempre começa a se perder depois de duas ou três páginas. Fico inquieto, perco o fio da meada, começo a procurar outra coisa para fazer. Sinto-me como se sempre tivesse que arrastar meu cérebro rebelde de volta ao texto. A leitura profunda que costumava me vir naturalmente tornou-se uma luta.

Acho que sei o que se passa. Por mais de uma década, tenho ficado muito tempo online, pesquisando, surfando e às vezes contribuindo para o crescimento dos grandes arquivos da internet.

À primeira vista pode não parecer, mas vai muito além do tolo alarmismo anti-web o artigo – “de fôlego†– publicado por Nicholas Carr na revista “Atlantic Monthly†(em inglês, acesso gratuito), com o título O Google está nos deixando burros?. O autor especula sobre como a rede mundial de computadores, ao mudar nossa relação com a leitura, estaria reprogramando nossos cérebros.

O título chamativo não faz justiça ao texto. Embora seja um conhecido adversário dos utopistas tecnológicos, Carr não é um reacionário. Lembra que seria fácil repetir hoje o erro de Platão, que, ao prever que a escrita enfraqueceria nossa memória e multiplicaria o conhecimento às custas da verdadeira sabedoria, tinha sua dose de razão, mas sofria de visão curta: a longo prazo, os benefícios da técnica tornaram seu argumento ridículo. Um cara preocupado, isso Carr é mesmo. Mas quem vai dizer que lhe faltam motivos?

21/07/08 11:56h

Sobrescritos
Diálogo com pastinha de hadoque

Você gostou?

Hein?

Gostou do livro?

O livro é legal.

Legal o bastante para ganhar capa?

Hahaha, calma, as coisas não funcionam desse jeito. Primeiro, não gostei tanto assim. E mesmo que tivesse gostado, a minha opinião é só a minha opinião. Não basta.

Como não? Você não é o editor da revista?

Escuta, querida. Você quer me ensinar a fazer o meu trabalho?

Não, eu…

Eu só aceitei este almoço, no meio de uma semana complicadíssima para mim, porque a gente sempre teve uma boa relação profissional. Acho você uma menina bacana, competente. Mas não confunda as coisas.

Desculpe.

O livro que você está tentando me empurrar é ingrato. Melhor desistir. Poupe sua munição para quando valer a pena.

Certo. É só que você disse que achou legal…

Estava sendo educado. Na verdade eu nem li.

Ah.

Não precisei ler. Leram por mim.

Alguém da sua equipe…

Mais ou menos isso. Vamos pedir?

Para mim, a truta com arroz de amêndoas. Você pode me dizer quem da sua equipe leu?

Taí, eu vou na truta também. Hein?

Quem da sua equipe não gostou, você pode me dizer? Aqui entre nós?

Não.

Entendo.

Parece que não entende, não. Garçom!

Olha, não me leve a mal. É só que…

Duas trutas com amêndoas, por favor.

É só que eu gosto muito do livro. Muito mesmo. Nunca fiz uma divulgação em que eu acreditasse tanto.

Hmm.

Acho que a literatura brasileira precisa de livros como esse.

Hmmm.

Você devia ler, viu? Mesmo que ficasse para um próximo número, não tem pressa.

Jura que não tem pressa?

Claro que não. O tempo da literatura…

Escuta, queridinha, vou abrir o jogo com você. Esse livro não entra na minha revista. Nem este mês nem ano que vem. Nem como capa nem como notinha. Não entra nem arrombando a porta, nem seqüestrando a minha mãe. Ficou claro?

Puxa, mas…

Esse autor é um não-autor na minha revista. Entendeu agora? O dia em que ele for levado a sério pela Textus e pela Finnegans, a gente conversa. Quando ele ganhar elogios estonteantes do Adolfo Pinho Rosa, a gente conversa. Quando o Armazém Typographico contratar seu próximo romance, a gente conversa. Quando a turma do Empório Zero der festinha em homenagem a ele, a gente conversa. Quando a blogosfera bater tambor para ele, a gente conversa. Quando…

Entendi. A sua revista segue a manada.

Que seja. Se é assim que você prefere pôr as coisas.

Desculpe, eu não tive a intenção.

Você tem muito que aprender, não tem?

Eu sei. Desculpe. Não vamos mais falar desse livro.

Acho bom.

Você gostou da pastinha de hadoque do couvert?

A pastinha é legal.

Eu já sabia que o Guia Swinton tinha recomendado, mas só agora entendo por quê.

Realmente fantástica a pastinha.

20/07/08 10:50h

Começos (ainda) inesquecíveis: Jeffrey Eugenides

Como esquecer as irmãs Lisbon? Post publicado em 9/7/2006.

*

Na manhã em que a última filha dos Lisbon decidiu-se também pelo suicídio – foi Mary dessa vez, e soníferos, como Thereza –, os dois paramédicos chegaram à casa sabendo exatamente onde ficavam a gaveta das facas, o forno, e a viga no porão à qual era possível atar uma corda. Saíram da ambulância, como sempre andando mais devagar do que gostaríamos, e o gordo disse entre dentes: “Isso não é a TV, gente, mais rápido não dá.†Carregava o pesado equipamento cardíaco e o respirador, passando pelos arbustos que haviam crescido de forma monstruosa, pisando o gramado transbordante que fora liso e imaculado treze meses antes, quando os problemas começaram.

Assim, entregando o fim para garantir desde a primeira linha que o leitor só abandonará o livro antes da hora se for ruim da cabeça, tem início a viagem poética e mórbida – praticamente neo-simbolista, pensando bem – de “Virgens suicidas†(Rocco, 1994, tradução de Marina Colasanti). Para quem se interessa pelas engrenagens da escrita, o belo romance de estréia do americano de ascendência grega Jeffrey Eugenides merece destaque ainda por um recurso inusitado: a narração é toda feita na primeira pessoa… do plural.

19/07/08 10:41h

A palavra é...
Charge

Ao mostrar o casal Barack Obama encarnando os boatos que circulam contra o candidato democrata em setores conservadores dos EUA, a capa da revista “The New Yorker†tenta, pelo exagero da cena, expor tais boatos ao ridículo. Se a estratégia corre o risco de incompreensão que sempre acompanha a ironia, o que ninguém pode negar é que toda boa charge tem isso em comum: agressividade e exagero. Ou o gênero de desenho jornalístico que filtra o noticiário pela lente do humor não teria esse nome.

O francês charge, de onde veio nossa palavra, quer dizer apenas carga, mas nesse caso com o sentido de crítica contundente. Trata-se de uma extensão metafórica da acepção militar de ataque – presente numa expressão como carga de cavalaria – adaptada ao vocabulário da imprensa e especialmente ao trabalho dos desenhistas cômicos. O italiano caricatura (inicialmente, ato ou efeito de carregar) partiu do mesmo ponto e chegou a resultado parecido. Tão parecido que é lícito supor que um vocábulo tenha surgido como tradução do outro. Nesse caso, há indícios de que a caricatura veio antes: segundo o Houaiss, o primeiro registro de sua acepção moderna (fins do século 16) aparece quase cem anos à frente da primeira charge francesa.

No Brasil, charge e caricatura – assim como cartum, termo mais recente, do inglês cartoon – são palavras sinônimas e usadas muitas vezes de forma intercambiável. O que as diferencia são nuances. No sentido mais estrito, a caricatura retira seu humor apenas do exagero dos traços fisionômicos, enquanto a charge, que pode ou não incluir o recurso à caricatura, privilegia o exagero da situação.

Publicado na “Revista da Semanaâ€.

18/07/08 15:48h

Escritores e zumbis

Toda semana, desde o início do mês passado, um capítulo do romance The living, uma história de zumbis, é publicado nesse site (em inglês, acesso gratuito), terminando com algum gancho típico de folhetim ou telenovela – uma bifurcação no enredo. E aí, o cara vive ou morre? Como estamos na internet, quem decide de que forma a pergunta será respondida no capítulo seguinte é o leitor. Só depois de computados os votos é que o autor, o americano Kealan Patrick Burke, pode dar prosseguimento à história, e assim começa tudo de novo. (Dica do blog de livros do “Guardianâ€.)

A coisa é tão singela que tem sua simpatia, e o charme para quem vive buscando exemplos de casamento entre web e ficção é evidente. Mesmo assim, devo admitir que acho cada vez mais difícil entender o fascínio exercido por esse tipo de interatividade. Uma coisa é a experiência com histórias abertas, tridimensionais, que permitam ao leitor navegar em diversas direções – um modelo narrativo prenunciado por Julio Cortázar em “O jogo da amarelinha†e que a web parece equipada para levar a conseqüências interessantes um dia, embora ainda esteja longe disso.

Algo bem diferente é submeter o próprio processo de escrita a essas enquetezinhas populistas que infestam a rede. Escritor que é escritor assume suas escolhas, mesmo que precise morrer abraçado a elas. Se quer que algo fique aberto para o leitor decidir, tem técnicas para isso. Pode deixar aquela ponta solta ou escrever duas, cinco ou mais possibilidades. O que não pode – não se quiser continuar se chamando escritor – é lavar as mãos e consultar os “universitários†que o lêem.

Isso para não mencionar os momentos em que um autor é obrigado, para o bem de sua história, a fazer justamente o contrário do que os leitores desejam. Contrariá-los profundamente quando torcem, bocós, para que Romeu e Julieta sejam felizes para sempre. A tal web 2.0 se acha muito esperta, mas esqueceu o valor inestimável – estético, pedagógico, político, o diabo – da frustração.

Eu sei, eu sei: é só um joguinho. Se experiências do tipo The living abrirem mercado de trabalho para escribas, que sejam bem-vindas. Só não convém esquecer que serão sempre uma forma rebaixada de literatura.

17/07/08 19:55h

As quinhentas palavras de Nooteboom

Passou a Flip, passou a ressaca da Flip, e eu me pego pensando insistentemente em algo que, no calor da hora, julguei trivial demais para comentar aqui no blog: o limite de quinhentas palavras por dia que o escritor holandês Cees Nooteboom se impõe.

Convém deixar claro: o que me impressionou não foi a disciplina de Nooteboom, o fato de que ele se obriga a escrever todo dia, em qualquer estado de espírito. Isso é rotina de escritor. O que me impressinou foi ele escrever tão pouco. “Se por acaso perco a conta e chego a seiscentas palavras, fico nervosoâ€, disse. Ir além disso, para ele, seria correr o risco de perder qualidade, densidade literária.

Fiz umas medições: quinhentas palavras equivalem a cerca de 45 linhas ou 3.000 toques com espaços. Em linguagem de velho jornalista, uma lauda e meia. Mesmo considerando a hipótese – delirante, porque não entendo nada de holandês – de na língua de Nooteboom as palavras serem mais compridas, mesmo que ele use uma única palavra composta para dizer, sei lá, “céu cinzento com nimbos a oesteâ€, ainda assim parece pouco.

Mas se todas as quinhentas forem boas, dá um livro por ano. Dos gordos.

16/07/08 12:55h

O melhor livro e o pior sexo

Sim, eu sei: Salman Rushdie levou dias atrás o prêmio de melhor Booker entre os Bookers, no aniversário de quarenta anos do prêmio, por “Os filhos da meia-noite†(Companhia das Letras, tradução de Donaldson M. Garschagen). Quem sabe agora eu perco o preconceito, tiro da cabeça que ele é só um epígono de “realista mágico†e dou uma chance ao homem.

Alguém aí se anima a deixar na área de comentários uma recomendação convincente que vá além de “ganhou o Booker dos Bookers�

Bacana, importante e tal, mas esses premiozões costumam ter alguma coisa de entediante, não? Basta dizer que o mesmo livro já tinha vencido a eleição de 1993, quando se comemorou o 25.° aniversário do galardão britânico. Puxa.

Deve ser só um estado de espírito momentâneo, mas, prêmio por prêmio, os que demarcam o outro lado da apreciação crítica – o lado de baixo, o fim da picada – têm me parecido mais relevantes. Em termos de balizamento estético, não dá para negar que a função do “pior“ é tão indispensável quanto a do “melhorâ€. Com a vantagem de nos fazer rir um pouco.

Excelente exemplo é o Bad Sex Award, concedido todo ano pela Literary Review de Londres (aqui, em inglês, os trechos vencedores de 1998 a 2005). Ganha o autor da pior, menos excitante, mais canhestra cena de sexo da ficção. Uma disputa sempre duríssima num dos terrenos mais traiçoeiros que um escritor pode enfrentar.

O prêmio mais recente foi dado postumamente a Norman Mailer por “O castelo na floresta†(Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares), ficção histórica sobre os anos de formação de Adolf Hitler. Eis um trecho da cena campeã, na página 68 da edição brasileira:

Assim, Klara virou-se para os pés da cama, pôs sua parte mais indecente sobre o nariz e a boca ofegantes de Alois e tomou em seus lábios seu velho aríete de guerra. Titio estava tão mole quanto um rolo de excremento. Não obstante, ela o chupou com uma avidez que só poderia vir do Maligno – isso ela sabia. Era de lá que aquele impulso tinha de vir. Assim, ambos estavam agora com as cabeças no lado errado, e o Maligno estava ali. Jamais estivera tão perto.

O Sabujo começou a voltar à vida. Dentro de sua boca. Foi uma surpresa para ela. Alois estivera tão flácido. Mas, agora, era homem de novo! A seiva de Klara escorria de sua boca, ele virou-se e cingiu o rosto dela com toda a paixão de seus lábios e sua face, pronto finalmente para moê-la com seu Sabujo…

Tem mais, mas isso basta – com sobra – para justificar a vitória de Mailer.

Quando tiverem a idéia de fazer uma versão brasileira do prêmio, não se esqueçam de me convidar para o júri.

15/07/08 9:38h

Enfim, o MacLivro Eletrônico

Quem se lembra da esnobada que Steve Jobs, da Apple, deu no livro eletrônico depois que a Amazon lançou o Kindle? Disse o homem que sua empresa não se interessava por esse mercado porque “as pessoas não lêem mais†– e não estava falando da classe média brasileira. Na época, comentei aqui no Todoprosa que Jobs podia estar disfarçando, enquanto se preparava para lançar um aparelho matador.

Acho que me enganei. Tudo indica que o aparelho já estava no mercado àquela altura, embora só agora comece a ficar mais clara sua vocação – entre muitas outras – para a leitura. Acaba de ser lançado o eReader Pro for iPhone, algo que os fãs do iPhone aguardam faz tempo. O vídeo demonstrativo disponível no endereço aí atrás é promissor, ainda que meio mambembe, mas convém esperar para saber como a novidade passará pelo teste de fogo a que a temida brigada dos blogueiros de tecnologia a submeterá nos próximos dias. Tamanho da tela, superfície brilhante x fosca, disponibilidade de títulos para baixar em cada um dos formatos, são muitas as variáveis que precisam ser levadas em conta.

Uma coisa parece certa: é bem mais condizente com o espírito do tempo ter um leitor eletrônico embutido num aparelho de múltiplas funcionalidades do que carregar uma engenhoca que serve só para isso.

13/07/08 10:58h

Começos (ainda) inesquecíveis: Marguerite Duras

Depois de um domingo flípico, esta retrospectiva volta ao lugar que é seu. O post abaixo foi publicado em 21/1/2007.

*

Certo dia, já na minha velhice, um homem se aproximou de mim no saguão de um lugar público. Apresentou-se e disse: “Eu a conheço há muito, muito tempo. Todos dizem que era bela quando jovem, vim dizer-lhe que para mim é mais bela hoje do que em sua juventude, que eu gostava menos de seu rosto de moça do que desse de hoje, devastado.â€

Penso freqüentemente nessa imagem que só eu ainda vejo e sobre a qual jamais falei a alguém. Está sempre lá no mesmo silêncio, maravilhosa. É entre todas a que me faz gostar de mim, na qual me reconheço, a que me encanta.

Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais.

Assim, de forma bela e estranha, começa o belo e estranho “O amante†(Nova Fronteira, 1985, tradução de Aulydes Soares Rodrigues), pequeno – na extensão – romance memorialístico com o qual Marguerite Duras (1914-1996) conquistou o prêmio Goncourt de 1984 e o sucesso comercial em escala planetária.

12/07/08 10:02h

A palavra é...
Colarinho-branco

A palavra composta colarinho-branco, que traduzimos do inglês white-collar, está tão associada à expressão “crime do colarinho branco†que deixa em segundo plano sua idéia de origem, que era simplesmente dividir os trabalhadores em dois grupos: de um lado os colarinhos-brancos, com terno e gravata, alto grau de escolaridade e salários gordos; do outro os blue-collar workers, o pessoal de uniforme, mal remunerado, encarregado de trabalhos braçais. O colarinho-azul não migrou para o vocabulário do português. Ficamos só com o branco mesmo.

Esse código de cores é bem americano: em grande parte das empresas daquele país, ao longo do século passado, o nível hierárquico dos funcionários era indicado por jalecos brancos e azuis. No entanto, há quem diga que as raízes são mais profundas. O primeiro registro de white-collar para qualificar o trabalhador de escrivaninha é de 1919 e aparece na obra de Upton Sinclair, autor do livro em que se baseou o filme “Sangue negroâ€, que valeu a Daniel Day-Lewis o Oscar de melhor ator. Supõe-se, porém, que a palavra tenha influência do colarinho engomado dos clérigos de várias religiões cristãs. Por séculos, foi nesses grupos que a sociedade européia recrutou não apenas sacerdotes, mas a maioria de seus trabalhadores intelectuais.

Mesmo sendo uma palavra dicionarizada que designa engravatados em geral, colarinho-branco é hoje quase uma exclusividade do vocabulário criminal. A expressão “crime do colarinho branco†surgiu em 1949, também no inglês, cunhada pelo criminologista Edwin Shuterland. A crescente liberalização dos trajes de trabalho pode ter contribuído para esse estreitamento, mas o fator dominante no Brasil foi certamente a grande popularidade do “apelido†midiático da lei federal nº 7.492, de 1986, que tem como alvo os crimes contra o sistema financeiro.

Publicado na “Revista da Semanaâ€

11/07/08 14:06h

O maior intelectual do mundo?

O religioso turco Fethullah Gülen venceu a eleição online de mais importante “intelectual público†do mundo, promovida pelas revistas – pesadamente intelectuais e ocidentais – “Prospect†e “Foreign Policy†(via Arts & Letters Daily). Todos os dez primeiros colocados são de países muçulmanos. Só na 11.ª posição aparece o primeiro do Ocidente, Noam Chomsky, vencedor da edição de 2005 do prêmio.

Tom Nuttall, editor de internet da “Prospectâ€, explica em tom meio constrangido (em inglês, acesso gratuito) o que aconteceu: uma intensa e inédita mobilização dos internautas muçulmanos, principalmente na Turquia. O que é um direito deles.

Bobagem é ainda promover qualquer tipo de votação “séria” online e esperar que o resultado diga alguma coisa sobre o mundo além de quem tem a mais azeitada máquina de propaganda e a maior disposição para usá-la.

10/07/08 17:23h

Sobrescritos
Uma orelha para Diana Wurz

Ela leu:

Diana Wurz escreve sustos, mastigando reticências como sucrilhos. Afaga tormentos, faz cócegas nos cânones, soluça anacolutos com uma graça súbita de bailarina imaginária. Humana, eis a palavra. Humanérrima. Em seus contos-relicários de sondar desvãos, de acender o sol, de entesourar momentos, atinge uma materialidade porosa e cheia de reentrâncias, ainda que cuidadosamente depilada, que denuncia sua filiação àquela irmandade de autores esguios que não escrevem com a cabeça, mas com o corpo. No caso de Diana, estreante de rara maturidade, nem mesmo com o corpo inteiro: com partes do corpo, uma unha aqui, ali o mamilo direito, apêndice espremido numa entrelinha, pâncreas fechando a frase com seu inconfundível – molhado, fofo – muxoxo pancreático. À medida que, lenta e viscosamente, escorre o texto, vai se despedaçando a jovem escritora com tal bravura, e com seus nacos pavimentando a auto-estrada do autoconhecimento, que não resta dúvida: Diana Wurz dói. Lateja. Feito uma estrela, se estrelas doessem.

Leu, releu, depois devolveu a folha em silêncio ao homem. Ele disse:

E aí, cumpri minha parte a contento?

Está bem legal. Você acha isso mesmo do livro?

Ué, não escrevi?

Ela sorriu: Está ótimo.

Posso mandar para o editor?

Pode, ela respondeu, desabotoando a blusa.

9/07/08 10:35h

Pornografia em dois tempos

“Tentei ser oswaldianamente pornográfico… folclorizam-meâ€, diz Xico Sá em seu blog, considerando incompreendida sua participação numa mesa flipesca que, também por causa da licenciosidade do cronista, o Todoprosa achou inesquecível. Só não entendi uma coisa: pornografia oswaldiana é folclore puro, Xico. Folclorizar o quê?

Mas para quem não agüenta mais ouvir falar em Flip – eu, por exemplo –, boa mesmo é essa história do blogueiro americano que comprou de uma respeitável senhora um lote de livros usados que o marido lhe deixara de herança e, chegando em casa, descobriu que vários volumes tinham sido escavados por dentro, transformando-se em perfeitos estojos.

Até aí, tudo bem. Já vi esse truque no cinema, livros que contêm pequenas garrafas de bebida e até pistolas. Mas os estojos que o blogueiro comprou da boa viúva acomodavam outra coisa: um grande número de polaróides de pornografia caseira, estrelando o falecido, na época bem vivo, com todo tipo de mulher – menos a própria, supõe-se. Esta, presumivelmente avessa à leitura, nunca descobriu o segredo cabeludo, todos aqueles lombos por trás das lombadas.

Nada como conhecer a cara-metade.

7/07/08 18:25h

A palavra é...
Calote

No dia em que for contada a história da crise econômica que, com maior ou menor força, aflige hoje o mundo inteiro, é provável que o primeiro capítulo seja dedicado a um calote, ou melhor, um megacalote: o das hipotecas subprime no mercado imobiliário dos EUA. Caída a primeira peça do dominó, os efeitos seguintes foram – estão sendo – complexos demais para resumir numa palavra, mas uma coisa é certa: o calote sempre volta a aparecer. Quando a disparada da inflação faz muita gente descobrir que calculou mal sua capacidade de endividamento, por exemplo.

A peça de dominó do parágrafo acima não está ali por acaso. É controversa a origem de calote – palavra antiga, registrada em português desde 1771, segundo o Houaiss –, mas a tese mais provável sustenta que ela veio do francês culotte. Não o calção, mas um velho termo do jogo de dominó que, como afirma o etimologista Antônio Geraldo da Cunha, designava “as pedras com que cada parceiro fica na mão, por não poder colocá-lasâ€.

A relação do culotte lúdico com a dívida não paga parece forçada à primeira vista, mas não é tanto assim. O calote pode ser entendido como o entulho que sobra na mão do credor, títulos que ele não conseguirá receber. Seja como for, culotte também tem em francês um sentido ainda atual que talvez bastasse para comprovar sua relação com o calote, embora Cunha não o cite: o de “dívida vultosa contraída no jogo ou nos negóciosâ€.

Sem sair da mesa de jogo, basta trocar o dominó pelas cartas para que surja um similar nacional para o culotte: mico-preto ou apenas mico. Mico Preto começou sua carreira como marca registrada de um velho – mas ainda em circulação – jogo de cartas infantil no qual perde o jogador que, no fim, tem na mão a carta do mico. Fez tanto sucesso que virou substantivo comum e acabou dando num verbo de ampla circulação: micar.

Publicado na “Revista da Semanaâ€.

6/07/08 18:06h

Flip 2008: altos, baixos, médios

A Flip 2008 teve altos, baixos e, sobretudo, médios, mas termina como um bom filme hollywoodiano: deixando no freguês a impressão de que, se a redenção do herói é possível, então existe justiça no mundo. O que, como se sabe, é apenas uma ilusão, mas disso também se vive.

Se o colombiano Fernando Vallejo, rei dos marqueteiros, tivesse conseguido roubar a cena de um escritor sério como o holandês Cees Nooteboom, na tarde-noite de sábado, o mundo estaria perdido. Ele bem que tentou, dizendo asneiras do tipo “toda literatura escrita em terceira pessoa é mentirosa; como o narrador pode saber o que se passa na cabeça de alguém?”. Nooteboom não perdeu tempo com isso: “O escritor é um mentiroso por natureza”. No fim Vallejo foi reduzido ao seu verdadeiro tamanho, e o sábado pôde caminhar para a apoteose da aula de Stoppard, que apresentei abaixo.

O domingo também teve sua nota redentora. A mesa sobre futebol, compartilhada pelos dois intelectuais brasileiros que dedicaram mais horas de reflexão ao assunto, Roberto da Matta e José Miguel Wisnik, foi uma espécie de confraternização final que ajudou a borrar com o diluidor da “paixão nacional” a geografia política de um evento que, mais que nos outros anos, carregou nas tintas de algo feito por e para São Paulo. Mas Da Matta é de Niterói, a camisa canarinho é de todos nós, e… The End!

Fora isso, a cidade estava adorável como sempre. Houve um nítido esmorecimento no número e na animação das festas-de-varar-a-noite, e no sábado as ruas estavam mais transitáveis (leia-se menos abarrotadas) que ano passado, o que deve ser natural num evento que vai perdendo o frisson de novidade para se firmar no calendário. E o papel de principal ponto de encontro do pessoal que circula em torno do livro no país parece estar consolidado.

A nuvem mais escura no céu pode ser apenas uma impressão minha, mas acho que convém investigar direito: há sinais de que o interesse despertado pela Flip no restante do público nacional – isto é, em todo mundo que gosta de literatura, mas por razões variadas não se manda para uma inflacionadíssima Parati – nunca foi tão baixo.

6/07/08 10:00h

A Flic e a Clip

Depois de Luiz Melodia chamar a Flip de “Flicâ€, foi a vez de Luis Fernando Verissimo, em sua primeira frase da conversa com Tom Stoppard, ontem à noite, chamá-la de “Clipâ€. Ao contrário do músico, o escritor percebeu imediatamente o erro e se corrigiu.

Cáspite! Coincidência, com certeza. Contudo, cabe a conjetura: e se a letra cê estiver cavando um convite para o convescote?